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Edson Athayde 29 de Abril de 2020 às 09:20

O nosso Natal em agosto

O egoísmo e o umbiguismo pululam. Sabemos todos que se formos ao mesmo tempo às praias, se não mantivermos a necessária distância social, todo o esforço que fizemos terá sido em boa parte inútil. Assim, bastaria um pouco de calma e parcimónia para as coisas se encaixarem.

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Apanho no ar a ideia lançada pelo filósofo paulista Leandro Karnal durante uma entrevista. Instigado a dizer algo que pudesse servir de muleta emocional para nos ajudar a atravessar este período de pandemia, Leandro disse o que pretendia fazer: montar já na sala de casa uma árvore de Natal.

O raciocínio é simples. O pinheiro de plástico pejado de luzes coloridas servirá como um símbolo da normalidade perdida, da previsibilidade e constância a que estávamos acostumados. Também terá um papel de desafio. Leandro diz que ficará contente se chegar vivo até dezembro, se puder comemorar o Natal em família (com toda a família que agora tem), mesmo que sempre tenha achado a efeméride uma coisa chata, como acha, mesmo que seja ateu, como é. Não importa. O seu sonho é ter mais um Natal banal e esquecível como tantos outros. Compreendendo que a próxima quadra de banal nada terá.

Isto encaixa na discussão do momento, a se sairemos disto melhores ou piores do que entrámos. Já estive mais otimista. Conforme vão tirando as chaves que nos trancam, com o horizonte do fim da quarentena a se aproximar, o que vejo é o retornar de coisas que não estava a sentir falta.

O egoísmo e o umbiguismo pululam. Sabemos todos que se formos ao mesmo tempo às praias, se não mantivermos a necessária distância social, todo o esforço que fizemos terá sido em boa parte inútil. Assim, bastaria um pouco de calma e parcimónia para as coisas se encaixarem. Será que teremos?

Num mundo onde ainda morrem milhares de pessoas por dia por causa de covid, o que mais ouço são exclamações do tipo “Quero lá saber, no primeiro dia de calor, vou estar na Caparica!”

Quem diz isto são as mesmas pessoas que juravam ter encontrado uma nova ligação com o seu eu interior, com o transcendental, com a Mãe Terra ou coisa que o valha. Deram likes em imagens de ursos a invadir cidades e fizeram pão caseiro. Mas não pretendem aceitar uma ida ao banho de mar de forma faseada e controlada.

Eu, que nunca montei uma árvore de Natal, estou a pensar em seguir o conselho do filósofo. Mas por um motivo diferente.

Se for sensato, se do ponto de vista sanitário fizer sentido, tentarei ter uma ou mais ceias de Natal em Agosto (mesmo que os meus convidados estejam no ecrã do computador).

Se é verdade que o Natal é quando o Homem quer, não vou esperar até dezembro para ter uma ou mais semanas de pensamento mágico, quando acreditamos que há boa vontade no coração de todos, quando presenteamos até quem não merece, quando rimos alto e comemos muito e bebemos vinho e amamos uns aos outros. Não vou esperar que o vírus me tire tudo isto no inverno.

Ou como diria o meu Tio Olavo: “A fé move montanhas. Mas eu se fosse você começava logo a empurrar.”

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