Edson Athayde
Edson Athayde 10 de outubro de 2018 às 18:30

O silêncio dos bons

Como todos os líderes extremistas, Bolsonaro funciona como o fulano que cobre a floresta de querosene, mas não se considera incendiário pois quem levou o isqueiro foi um amigo.

"O que me preocupa não é o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética. O que me preocupa é o silêncio dos bons." (Martin Luther King)

 

Como falar sobre comunicação nesta semana sem referir as eleições presidenciais brasileiras? Os ângulos possíveis são muitos, todos vão de alguma maneira incomodar uma ou ambas as partes políticas envolvidas.

 

O meu Tio Olavo costumava dizer que "o fim do mundo não é esse fim do mundo todo que as pessoas pensam". Costumava. Mudou de opinião. É que ele tem, como eu, uma quantidade imensa de brasileiros a frequentar o timeline do Facebook.

 

Onde antes pululavam gatinhos e frases bonitas assinadas por Machado de Assis, Fernando Pessoa e Clarice Lispector, mesmo que nunca ditas pelos próprios, agora há ofensas em caixa alta, ameaças seguidas de múltiplas exclamações e muitos emojis zangados ou a vomitar.

 

As recentes eleições transformaram as redes sociais brasileiras em batalhas campais, em que familiares se ofendem, amigos se insultam, conhecidos se bloqueiam.

 

Isto nem é muito novo, apenas ganhou mais expressão. Desde as precursoras caixas de comentários dos jornais online (lar das mais bizarras opiniões, reduto dos que só são valentes por trás do anonimato) que a insanidade verbal se tornou o novo normal. O problema é que o que era só virtual vazou para o mundo real.

 

O provável futuro Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, já avisou que o que os seus militantes fazem não é da conta dele. Ou seja, assobiou para o lado pois sabe que uma vez a porteira aberta a boiada não tem mais controle.

 

Como todos os líderes extremistas, Bolsonaro funciona como o fulano que cobre a floresta de querosene, mas não se considera incendiário, pois quem levou o isqueiro foi um amigo. E, assim, alguns milhões de brasileiros mostram ao mundo o que há de mais feio, rude e violento.

 

Peço desculpas antecipadas aos eleitores de Bolsonaro que não fazem parte da imensa militância fascista que o acompanha. Mas, diz-me com que votas e tirarei algumas ilações sobre quem és.

 

Para os que gostam de relativizar, o argumento que os petistas também eram e são chatos e radicais, apesar de verdadeiro, não serve como justificativa para os péssimos comportamentos da nova direita.

 

Os novos bárbaros misturam-se aos bem-intencionados, desinformados, ingénuos ou revoltados contra o sistema criando o caldo de cultura que dá força a um verdadeiro gangue que quer ditar comportamentos ("Morte aos maconheiros", "Vamos acabar com a ditadura gay", "Quem adora o diabo que vá para o inferno"), reativar preconceitos ("Lugar de negro é na senzala", "Brasil: ame-o ou deixe-o", "Mulher é ser inferior"), regredir a um passado que só na cabeça deles era bonito, limpo, honesto, seguro, onde todos eram felizes e os rios eram de chocolate.

 

A narrativa de Bolsonaro é tão eficaz quanto irreal. O que faz lembrar Aristóteles que alertou na sua "Poética" o quanto o ser humano tinha necessidade de ficcionar o mundo. Só tenho pena que o meu Brasil está a um passo de optar em se tornar um filme de época, em preto e branco e de terror.

 

Publicitário e Storyteller

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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