Edson Athayde
Edson Athayde 08 de janeiro de 2019 às 19:41

"Um cabrão de um mentiroso"

Trump não é bom, nem uma boa pessoa. Mas não é mau do jeito que imaginamos. Há ali uma vilania complexa, uma maldade genuína, uma visão perigosa sobre a humanidade.

Uma das convenções do storytelling é deixar o fim para o final. É uma regra boa e útil. Mas não é uma lei constitucional.

 

Intitulei o meu segundo romance, um livro de mistério, um quase-policial, de "Jonas Vai Morrer" (Chiado Editora). A ideia era revelar desde a capa quem era a vítima e passar todo o livro sem revelar a forma da morte ou quem era o assassino (se é que havia algum; afinal, uma morte pode ser acidental ou natural). Lá pelas tantas até mesmo essa afirmação (de que Jonas iria morrer) era posta em causa. É sempre um prazer brincar com as expectativas de leitores inteligentes.

 

Encontrei um paralelo entre o meu humilde "Jonas" e o calhamaço de quase 500 páginas, chamado "Medo" (Edições Dom Quixote), uma interessante obra do jornalista Bob Woodward sobre o presidente Trump.

 

Impossível entrar nesse livro sem já ter uma ideia feita em relação ao protagonista. Há décadas que convivemos com as várias faces de Trump. Temos opiniões e preconceitos sobre a sua figura. E se vamos ler uma grande reportagem sobre o atual homem mais poderoso do mundo, escrita por um jornalista conotado com a esquerda (vale lembrar que Bob foi um dos artífices da série de artigos do Washington Post que revelou o escândalo Watergate e derrubou Nixon) não há forma de esperar algo de lisonjeiro.

 

A trama encerra-se justamente com a frase que encabeça esta crónica: "Um cabrão de um mentiroso". Refere-se a Trump, claro. Mas não é dita por um inimigo do homem. Mais que uma ofensa, é quase um elogio, um comentário ao pé do ouvido, uma diatribe proferida pelo então advogado de Trump.

 

Acabamos a história do mesmo jeito que imaginávamos que iria ser. Confirmamos as nossas expectativas. Assim como Jonas morre, Trump é mesmo aquilo que desconfiamos: um cabrão e um mentiroso.

 

Porém, entretanto, contudo, "Medo" nos oferece mais. Bem mais. Descobrimos que Trump não é burro. Nem mesmo é um simples idiota. Quando muito estamos a lidar com um raro caso de um idiota complexo, um idiota que é ao mesmo tempo astuto, com um carisma bizarro e uma capacidade tremenda de tirar o pior dos seres humanos à sua volta.

 

Trump não é bom, nem uma boa pessoa. Mas não é mau do jeito que imaginamos. Há ali uma vilania complexa, uma maldade genuína, uma visão perigosa sobre a humanidade.

 

Recomendo a leitura de "Medo" como recomendaria um livro sobre Hitler que conseguisse expor parte da sua alma antes dele cometer todo o catálogo de crimes até então disponíveis. Apesar de relatar o primeiro ano da presidência Trump, ou seja, falar sobre o passado, "Medo" explica de maneira contundente o nosso presente e aponta, sem ser explícito nem panfletário, para onde vamos.

 

E, amigos, assim como o de Jonas, se depender de Trump, o nosso destino não será muito bonito.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo, inspirado como nunca, citando Shakespeare: "Eis a calamidade destes tempos: loucos guiam cegos". 

 

Publicitário e Storyteller
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