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[161.] Skip sabão natural

Eu sei, eu sei... eu sei que tenho um fraquinho por anúncios de detergentes. A sua simplicidade é tão brutal que imagino a dificuldade da sua concepção.

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Pretendem chegar ao mais amplo público-alvo, um público que, se o sabão pudesse, era maior que o próprio público da TV generalista. São tão óbvios que foi tudo menos óbvio para os seus criadores descobrir a forma das mensagens. São tão reais que conseguem esconder melhor que todos os «reality shows» a sua ideologia, a sua construção como objectos puramente ficcionais.

O novo «spot» do Skip na TV foge um pouco a esse realismo porque, ao contrário do habitual nesta publicidade, não mostra o sabão em acção, não mostra roupa suja, não mostra máquinas nem tanques de lavar roupa. Mas é mesmo assim realista nos elementos que apresenta, apesar da sua forma de «videoclip» pimba em grande velocidade. O anúncio apresenta um cantor pimba cantando um tema pimba semelhante aos dos santos populares, festas que fornecem, aliás, o ambiente visual. O vídeo é formado por apenas quatro planos. Estamos em pleno bairro popular de Lisboa durante as festas, o que sabemos pelas decorações adequadas na rua. A câmara recua à frente de duas mulheres com alguidares de roupa que dançam ao som da música. Do lado surge, pondo-se a avançar para nós à frente delas, o cantor pimba que simboliza o Skip Sabão Natural. Veste um fato de cetim branco, debruado a amarelo. Passa na rua estreita, onde, de cada lado, há roupa branca pendurada, ao alcance dos seus braços abertos. O plano termina com o cantor passando entre mulheres que passam pela face os lençóis pendurados.

No segundo plano, quase sem se notar a interrupção, o cantor continua avançando à frente da câmara em «travelling». Passa entre dois casais de namorados, de cada lado um marinheiro de farda branca debruada a azul, de cada lado a namorada de vestido ou saia e blusa de cores garridas e pezinho levantado no ar enquanto se beijam. O cantor avança sem receio à frente da câmara, entrando agora num pequeno largo onde passa agora por entre homens de avental de branco imaculado que grelham sardinhas e por entre uma série de pessoas populares e crianças, todos felizes nesta utopia de detergente feita. Passa depois por um homem de acordeão e mudamos de plano, sempre em «travelling» à frente do cantor.

No terceiro plano, a rua estreita e dois homens dançam cada um com seu jarro de barro, supomos que de vinho tinto, pois logo a seguir o cantor passa por dois felizardos bebendo de canecas de barro. De novo num largo, ei-lo que dá o braço de cada lado a duas mulheres de meia idade ostentando t-shirts com o nome da canção: «Eu Sei, Eu Sei». Finalmente, o cantor pimba entra numa zona mais feérica de arquinhos e balões, terminando o anúncio com o fim da canção, com um arco que diz «Skip amo-te» enquanto ele se agarra a uma embalagem de Skip que alguém lhe atirou.

O último plano, correspondendo ao «the end» do cinema, mostra um pacote e um frasco de Skip entre dois manjericos, tudo emoldurado por balões e fitas de papéis da época dos santos. Ao fundo, fazendo de fundo, agita-se ao e leve um lençol branco.

No cinema de topo, o «travelling» seria filmado em apenas um plano, mas é mesmo assim um notável «tour de force» que o «travelling» movimentado e cheio de acção do cantor ocorra em apenas três planos. A letra da canção fala em «correr mundo» (o universo emigrante recorrente na música pimba), em lavar, em poupar, brancura, estendal, Portugal, «não há outro como o Skip», o que ele diz saber.

No fim ainda ouvimos uma voz «off «que anuncia «Skip Sabão Natural -- a tradição está de volta.» Depois de tão extraordinária «performance», quem vai duvidar que este sabão é natural e que a tradição está mesmo de volta? O povo é feliz, e com Skip.

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