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[182.] Escada, Lacoste

O novo anúncio da água de cheiro para mulheres Escada Into the Blue é um prazer para os olhos, e esse é o segredo de grande parte da publicidade de perfumes: proporcionar ao sentido da vista um intenso prazer estético para que o sentido do odor seja tenta

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É Natal, falemos só do maravilhoso.

O novo anúncio da água de cheiro para mulheres Escada Into the Blue é um prazer para os olhos, e esse é o segredo de grande parte da publicidade de perfumes: proporcionar ao sentido da vista um intenso prazer estético para que o sentido do odor seja tentado por simpatia. Toda a superfície do anúncio é submarina, sugerindo a frescura e o marítimo azul ("into the blue"), mas ao alto promete-se a luz à superfície, na pele do mar: é lá que está o símbolo do perfume. É uma flor entre rosa e vermelho, cores de paixão e feminilidade, flor formada por seis pétalas iguais, seis pétalas que são uma e mesma rapariga digitalmente repetida para formar o conjunto. Ela sorri de olhos fechados, como se respirasse fundo, e o seu vestido vaporoso sugere a pele de seda da flor e a frescura da água que a toca – esta água de cheiro. O corpo dela dobra-se pelos rins, assim dançando na roda que forma com as suas gémeas e os pés são pás de moinho de água ou espinhos de roseira fresca. Esta menina repetida são seis sereias vestidas com a humidade sublime de uma água de cheiro. Uma rosa de sereias flutuando à tona de água: simples e realmente belo.

Outro anúncio soberbo: este é da Lacoste. A simplicidade até arrepia: uma fotografia de uma rapariga flutuando, não no mar, mas no ar. Em cima, à direita, colado ao céu, o símbolo e o nome da marca. No céu, em baixo, nuvens suaves ao longe. E, no canto inferior direito, o recorte de uma cidade. A frase colocada por baixo dos pés dela, como que elevando-a, é poética, forte e fortemente ligada à imagem, como devem ser os "slogans": "un peu d’air sur terre", um pouco de ar na terra. Na sua versão portuguesa, o anúncio já não precisou do asterisco para a tradução, pressupondo que, dotados já da literacia visual a respeito deste detalhe, os observadores saberão que a tradução estará em baixo ou num canto em letras pequenas, como acontece aqui.

A elegância do voo da rapariga era fundamental para dar graça – graça no sentido profundo da palavra – a esta imagem. Ela está toda vestida de Lacoste, desportiva mas elegante, elegante mas à vontade, leve. A luz forte que a ilumina por trás, como sucedia já no anúncio de Escada, reforça a proximidade ao sol, parece a luz que vemos nas nuvens num voo a grande altitude. Esta rapariga liberta-se duma moda que faria dela prisioneira e veste uma marca que a deixa respirar e lhe permite a modernidade urbana da cidade ao longe – mas colocando-a acima da cidade...

Olhando a rapariga ficamos sem saber ao certo se ela voa ou se parece que voa com o seu "outfit" Lacoste. Mas ela impressiona-nos neste plano em contrapicado que nos põe abaixo dela e ela no ar, não sereia, mas garça leve de gesto elegante, uma quase deusa entre o céu e a terra. É um anúncio que roça a perfeição, e sendo a perfeição impossível aos que, quase todos nós, andam na terra apenas com um pouco de ar, fica o agradecimento natalício à publicidade pela beleza que nos oferece, mesmo aos que não querem ou não podem consumir os produtos anunciados.

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