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[245.] Millennium BCP

Se dissessem há 20 anos aos principais accionistas e clientes do BCP que se preparava um anúncio do banco com um popular apresentador de TV sentado numa cadeira de barbeiro eles teriam um colapso. Nada está mais longe dessa época em que o banco só aceitav

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Jorge Gabriel, o animador das manhãs das donas de casa e dos concursos ‘para toda a família’ na RTP1, senta-se na cadeira de barbeiro e o simpático homem faz-lhe um escanhoado perfeito e sem perigo. Se a navalha não mete medo ao Jorge como há-de meter medo aos pobres clientes que vêem os seus salários cada vez mais pequenos? O pequeno aforrador pode confiar.

Muito bem. Boa metáfora. Popular. Etc, etc. Mas publicidade e fantasia não excluem o mundo real. Este não é um banco qualquer. Passou por um processo de exposição pública terrível, investigação a negócios ‘in-shore’ e ‘off-shore’, perdões de dívidas, revelação de salários e distribuição de lucros e indemnizações a administradores tão fora do real que, isso sim, parecia do mundo da fantasia para quem vive de um salário de mil euros por mês ou coisa assim – e precisa de aforro.

Havia que activar no mundo da publicidade uma realidade tão afastada de tudo isso que não sobrasse no consciente, no subconsciente, no inconsciente, no pré-consciente, no pós-consciente, no supraconsciente ou no infraconsciente dos observadores da publicidade, nada, rigorosamente nada que lembrasse os casos e supostos escândalos do banco.

A publicidade recorreu para isso a uma tarefa em risco de extinção: o barbeado na cadeira do barbeiro. Há cada vez menos homens sentando-se naquelas cadeiras para um escanhoado. Não há tempo e há em casa alternativas de crescente eficácia, sejam as máquinas eléctricas sejam as de lâminas.

Por que raio, então, está Jorge Gabriel sentado na cadeira do barbeiro? Por que não arranjaram outra metáfora visual mais adequada ao tempo moderno? Mesmo que a situação não tivesse de ser ‘super-fashion’, haveria muitas alternativas para promover os serviços do Millennium de forma popular. O banco já usou diversas vezes Jorge Gabriel e outros ‘conhecidos’ para obter esse tipo de reconhecimento.

Porquê o barbeiro? Porque, imagino eu, o Millennium se sente ele mesmo perante o povo como Sweeney Todd, o barbeiro assassino (ver foto).  A campanha do banco aparece já depois de estreado o filme de Tim Burton com Johnny Depp no papel do barbeiro que senta os homens na cadeira para os matar à navalhada, despejando-os depois para uma cave onde a sua companheira os transforma em carne picada.

Na casa e taberna de Sweeney Todd e da sua Mrs Lovett ocorriam horrores que os clientes desconheciam. Os clientes eram as vítimas, uns porque levavam a navalha lhes abria o pescoço, outros porque despreocupadamente comiam empadinhas de carne humana. Os clientes do Millennium BCP estavam numa situação comparável: desconheciam o que se passava nas Bahamas e salas da administração.

Os anúncios da campanha do banco mostram a navalha em grande destaque. Na internet, é uma navalha que ‘limpa’ o ecrã mostrando depois o barbeiro preparando-se para escanhoar Gabriel. Na TV, o anúncio mostra, com detalhe “sweeney-toddesco”, a acção do barbeiro na cara do apresentador. Tal como o espectador do filme, o observador sente o perigo, mas ele é ultrapassado e Gabriel sai inteiro da barbearia, pelo menos por esta vez. Com o Super Aforro do Millennium afinal não há perigo.

Desconheço se os publicitários e o banco associaram conscientemente a campanha à própria vida interna da instituição e se ignoraram a coincidência com a presença de Sweeney Todd nas salas de cinema, na imprensa e TV. Certo é que os três factos coincidiram: escândalos, filme e anúncio na barbearia. Se não associaram no consciente, decerto que o fizeram no subconsciente, no inconsciente, no pré-consciente, no pós-consciente, no supraconsciente ou no infraconsciente. Esta é uma campanha no fio da navalha.

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