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[329] Terre d’Hermès

O perfume masculino Terre d’Hermès regressa agora num anúncio quase igual ao que há anos surgiu na imprensa e que referi no longínquo artigo nº144. Mudou a nuvem simbolizando o poder do perfume e o jovem no canto inferior esquerdo tornou-se activo.

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O perfume masculino Terre d’Hermès regressa agora num anúncio quase igual ao que há anos surgiu na imprensa e que referi no longínquo artigo nº144. Mudou a nuvem simbolizando o poder do perfume e o jovem no canto inferior esquerdo tornou-se activo. Para os gregos antigos, Hermes é o deus mensageiro.

Desconheço se o fabricante pretendeu apropriar-se dessa simbologia ou se apenas pretendeu uma sonoridade com sabor antigo, absorvendo a autoridade da aura civilizacional grega. Neste caso, a Hermès criou um perfume com o nome de Terra. Terra de Hermes! Tanto passado, tanto valor acrescentado para uma água de cheiro!
Deixemos os gregos, concentremo-nos no nome do perfume.

Porquê Terra? Embora associada ao aspecto feminino, à fecundidade à regeneração, julgo que aqui se pretende em primeiro lugar associá-la à realidade por oposição ao sonho. Mais importante, porém, como se vê no anúncio, é criar uma síntese a partir de dois pólos, a terra e o céu, a realidade e o sonho, o masculino e o feminino.
Ambos os anúncios representam claramente a busca dessa síntese pela organização geométrica dos elementos na sua composição. Pelas diagonais, encontramos a ligação do homem na terra ao sonho/nuvem, sendo que a nuvem é ela mesma feita da cor símbolo do perfume e da terra. Quer dizer, a terra está no céu, o sonho torna-se realidade.

Ambas as diagonais mostram a mesma síntese: homem/nuvem-de-terra num caso, homem/frasco-de-perfume-terra no outro.
Obtém-se o mesmo efeito simbólico na divisão do anúncio em quatro partes iguais. Estas linhas mostram que o anúncio está claramente dividido em quatro elementos organizados geometricamente. Dividido, mas unido na síntese. Em baixo o homem-terra e o perfume-terra; em cima o homem-sonhador e o perfume-nuvem que garante a conquista do sonho. À esquerda, o homem-na-terra e o homem-sonhando, à direita o perfume-frasco e o perfume-em-forma-de-nuvem, ou de cheiro. A “terra” funciona como metáfora de conquista do sonho.

A terra, neste anúncio, é ao mesmo tempo feminina e masculina (ela é líquida, ela é sólida e regada pelo perfume). A masculinidade da terra é mais visível no anúncio-filme, sendo o homem comparado ao cavalo cujas patas recebem a virilidade do contacto com a terra. O homem pega num pedaço de terra e lança-a ao céu, como se vê no actual anúncio de imprensa. É ele que faz a nuvem, é ele que faz (que compra) o sonho. A nuvem é também masculina e feminina, pois ela é o líquido feito nuvem e é a terra feita céu; em qualquer caso, representa o outro polo da oposição binária representada.

A oposição desfaz-se pela harmonia da síntese. Em ambos os anúncios há um pingo que cai sobre o frasco. No filme, o pingo cai sobre a testa do homem, consumando a ligação, a síntese. Esse pingo é a própria metáfora visual da síntese, é o pingo de chuva que cai duma nuvem feita de terra.
A visualização desta metáfora é mais clara ainda no segundo anúncio, pois vê-se que a formação da nuvem é obra do homem que lança uma mão cheia de terra para o céu e forma-se a nuvem de terra que o há-de molhar.

Este segundo anúncio tem mais acção, acentuada pela diagonal esquerda-direita. Na parte superior, fica a cabeça do homem sonhador e a nuvem, do tamanho dele, confunde o perfume com o seu utilizador, a realidade com o sonho a viver depois da compra.

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ect@netcabo.pt
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