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[487.] Canali

O anúncio de imprensa da marca italiana Canali é à primeira vista bastante "normal", mas chamou-me "demasiado" a atenção para que fosse apenas mais uma imagem habitual de roupa masculina. Porque seria?

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A simplicidade é atraente, mas não explica a captura da atenção. Mostra um plano médio de um modelo masculino, com barba aparada, roupa clássica, gravata, casaco cruzado, lenço no bolso e na mão direita um chapéu preto, com o qual (des)tapa uma parte da cabeça e da cara. A foto pressupõe o movimento de pôr ou tirar o chapéu.

O chapéu chama a atenção, lembra um chapéu alto, acessório hoje invulgar, mesmo na camada abastada das velhas sociedades aristocráticas europeias. Mas acessórios estranhos são vulgares nos anúncios. Este apelou à minha memória visual — e de lá veio, por fim, a imagem que me invocava o anúncio da marca italiana. A foto do anúncio é muito semelhante ao Auto-Retrato de Edgar Degas da colecção do Museu Gulbenkian. O pintor francês retratou-se em plano médio, um pouco mais aberto que o do anúncio (este precisa de mostrar bem as roupas), olhando para o observador como no reclame, com um chapéu alto na mão direita levantada, e roupa de sair à rua. Degas deixou à vista o esboço de duas outras posições do chapéu, mais próximas da cabeça, como se, na imagem fixa, o chapéu estivesse em movimento. O anúncio de Canali parece preceder ou continuar o movimento do auto-retrato de Degas: o braço chegou perto da cabeça, ou está ainda perto dela, tapando um olho do modelo.

Semelhança do enquadramento, semelhança do modelo com Degas na barba, roupa, pose: são indícios mais do que suficientes para apostar que os publicitários se inspiraram ou quiseram mesmo fazer uma imitação de Degas, com um travo a pastiche: há um toque fino de humor no facto de o modelo do anúncio prolongar o movimento pressuposto no quadro de Degas, como se o modelo, os publicitários e a marca estivessem a cumprimentar, em agradecimento e homenagem, o autor e o quadro. O olho tapado do modelo do reclame parece piscar o olho a Degas, dando uma pista da relação entre ambos os retratos. É de se lhe tirar o chapéu: "chapeau, Mr. Degas", diz o anúncio. Com toda a razão: o quadro forneceu um modelo de imagem, forneceu a estética e a sua sanção, emprestou o prestígio e a autoridade da obra de arte: o anúncio deixa, assim, de ser um mero anúncio, libertando-se da condição essencial e comezinha da publicidade: querer vender coisas; adquire ele mesmo uma condição intermédia entre a propaganda comercial e a arte.

Estranharia que os publicitários desconhecessem o auto-retrato de Degas: ele "está" inteirinho inscrito na composição, elementos físicos e estética do anúncio. Mas, mesmo que desconhecessem, ou que ele estivesse apenas no recesso da memória, como no meu caso, foi o quadro, não duvido, a soprar a inspiração para um belo anúncio e a inscrever, pelas sugestões da imagem, a marca italiana num estilo de vida e num patamar de qualidade. Ao tomar de empréstimo, conscientemente ou não, uma bela obra de arte, o anúncio convida-nos a dizer "chapeau, Mrs. publicitaires".


etc@netcabo.pt
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