Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 29 de novembro de 2012 às 00:17

[489.] Continente: "o Natal é brutal"

O anúncio em que se canta "No Continente o Natal é brutal" recebeu comentários negativos, considerando que a palavra brutal não se adequa ao Natal, festa da família e da paz.

Os comentários têm alguma razão de ser porque o anúncio é dirigido ao público infantil. A canção trata o espectador e ouvinte por tu, assumindo-o como criança. O ambiente é totalmente desprovido do espírito natalício e mesmo infantil. A animação com a personagem Popota passa-se num ambiente de discoteca, com luzes e dança ao som de uma música pop em que, além da voz feminina, se ouve uma voz masculina rouca e cantando em inglês e estilo hard rock. Provavelmente, a duplicidade visa atingir quer as meninas quer os meninos. Em qualquer caso, não mostra símbolos associados ao Natal. É só uma festa "onde tu vais brilhar. Queres dançar? Põe a mão no ar. No Continente o Natal é bru-bru-brutal!" 


O anúncio cola ao Continente um carácter lúdico, estando o comércio em terceiro lugar na lista da letra da canção: "Dança, música e brinquedos e a nossa popstar, está tudo no Continente, tudo pronto para arrasar!" O lado espectacular é acentuado na voz off final, que junta, como quase toda a publicidade, a ficção (a Popota) à realidade promovida (o Continente): "Com a Popota e o Continente, o Natal é sempre uma festa!" As imagens condizem: o nome iluminado da Popota é substituído pelo nome do Continente, que assim se torna o destino da ficção Popota.

No desenho animado, há imagens de uma discoteca, com um DJ e gente dançando, incluindo umas Popotas no palco. Mas esses poucos segundos são parte de uma sequência que diminui o impacto de imagens de cenário mais adequado aos adolescentes e adultos numa publicidade infantil. Os bonecos dançam num navio de cruzeiro, numa rua sem carros e num circo, espectáculo identificado com o Natal.


Tendo em conta o conteúdo verbal e visual do reclame, a ideia do "Natal brutal" faz sentido interno. A palavra brutal não ocorre no sentido literal, de violência, mas no sentido comum em português de grande, enorme, fantástico, o máximo. A utilização destina-se ainda a cumprir pela rima a função poética da comunicação.


O anúncio esvazia o Natal da sua razão de ser, apresentando-o como compete a uma instituição comercial. Nesse sentido, o reclame não tem o cinismo dos que usam os bons sentimentos natalícios para obter o mesmo efeito desejado por toda a publicidade: eficácia comercial.

Essa será a razão profunda dos comentários negativos à campanha do Continente, pois os ofendidos sabem bem que "brutal" quer ali dizer "fantástico". Quem vive impregnado na ideologia da sociedade de consumo e incapacitado de verdadeiramente ver a natureza comercial dos anúncios, ficará chocado quando um reclame diz, basicamente, que nas lojas anunciadas o Natal não é o Natal da tradição e da publicidade cínica que a utiliza, mas é apenas uma festa para induzir à visita e às compras. Porque, afinal, os dois Natais convivem na cabeça e na carteira de todos, o Natal festa religiosa, da família e do sossego, e o Natal do consumo.

Quando um anúncio, ainda por cima para crianças, omite o Natal primordial, existe essa possibilidade de algumas pessoas se sentirem brutalizadas pela mensagem comercial. Esta mensagem atinge-as na sua consciência, pois revela a segunda natureza do Natal contemporâneo. Quem está contra a ideia do Natal brutalmente comercial do anúncio tem uma reserva mental contra a sua própria adesão a essa prática consumista. Tem uma questão consigo mesmo. O que é brutal (fantástico) é que o Continente tenha assumido sem reservas a sua própria natureza bruta (comercial) sem recorrer a flores da época, como o Pai Natal, a árvore e as famílias em comunhão feliz à volta da lareira.

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