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[496.] Samsung: "a mala da Pépa"

O vídeo da "mala da Pépa", como ficou conhecido por ela manifestar o seu sonho de poder comprar em 2013 uma carteira Chanel— com o dinheiro ganho a trabalhar — foi de uma total incompetência e de uma total imprudência.

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Se a Samsung tivesse feito um vídeo publicitário com uma moça alentejana dizendo que o seu sonho para 2013 era comprar uma mala preta da Chanel, o Facebook teria regurgitado "likes", "smiles" e "shares". O mesmo se fosse uma minhota, portuense, algarvia ou açoriana. Mas fizeram o anúncio com uma rapariga de classe média da linha de Cascais. Foi arrasado.


A primeira análise ao escândalo histérico nas redes sociais e depois nos media tradicionais em redor do vídeo promocional com a bloguista de moda Filipa Xavier tem necessariamente de ser sociológica. A condenação dirigiu-se à forma de falar e aos extractos das declarações da rapariga.

Tratou-se de uma manifestação de ódio de classe. Filipa, ou Pépa Xavier, exprime-se de modo muito acentuado no único sotaque português que é associado a um extracto social: a classe média e média alta da região chamada, em tempos do PREC, o "eixo Lisboa-Cascais". Todos os outros sotaques portugueses são, que eu saiba, apenas regionais. Apesar de mais acentuados nas classes populares, a população de cada região partilha certas formas de pronúncia das vogais, consoantes e ditongos, da prosódia e da construção frásica e usa vocabulário distinto.

Noutros países, os sotaques de classe ou casta são mais evidentes: nenhum telespectador português ignora as diferenças enormes de sotaque entre as classes altas e as classes trabalhadoras inglesas, por exemplo. Em Portugal, um portuense das classes altas partilha mais semelhanças de expressão oral com outro das classes baixas do Porto do que com pessoas das classes altas da Madeira ou do Alentejo. Deste modo, o sotaque a que, na minha juventude, chamávamos "pecebe", por síncope gramatical do r de "percebe" pelas meninas chiques de Lisboa-Cascais, distingue-se como marcador de classe. Como não existem, em termos linguísticos, nem sotaques bons nem sotaques maus, este é, pois, alvo de desprezo por identificar uma classe burguesa, logo, "condenável" para gente politizada de "esquerda", com enraizado ódio classista ou apenas ressabiada. Não fez qualquer diferença vir--se a saber, como numa notícia da SIC, que Filipa Xavier ganha 700 euros por mês com a sua pequena actividade como bloguista de moda: ela representava ali uma classe e um estilo de vida que convinha desprezar.

Os outros vídeos da Samsung com gente envolvida na actividade da moda não exibiam pessoas particularmente marcadas por esse sotaque nem tinham declarações de carácter ingénuo e excêntricas ao mundo da esmagadora maioria dos portugueses, como as de Filipa Xavier. A histeria contra o vídeo resultou da incapacidade de aceitar o outro, de entender que a rapariga se inseria, não só na classe média do eixo Lisboa-Cascais, mas também no chamado "mundo da moda", com idiossincrasias muito particulares. Mas isso todos têm: basta pensar um pouco para se entender que, dos jornalistas aos mecânicos, dos pedreiros aos gestores, dos universitários aos mineiros, todos partilhamos mundos próprios que podem parecer estranhos aos que nos observam de fora.

 


O vídeo de Filipa Xavier foi explosivo por juntar as duas coisas: o sotaque classista e um universo real e onírico de uma rapariga em início de carreira na moda, um mundo muito específico que parece, ou poderá ser, um dos mais afastados da "normalidade" da larga maioria da população — incluindo a fauna facebookiana.

E aqui chegamos à análise publicitária. O vídeo da "mala da Pépa", como ficou conhecido por ela manifestar o seu sonho de poder comprar em 2013 uma carteira Chanel— com o dinheiro ganho a trabalhar — foi de uma total incompetência e de uma total imprudência. Qualquer pessoa competente ou apenas razoável entenderia que o vídeo só poderia resultar em chacota, mesmo que não pudesse prever a dimensão da divulgação viral. Não porque Filipa Xavier não tenha o direito a usar o seu sotaque, como todos nós usamos os nossos (repito: todos nós), e não tenha o direito de sonhar em juntar dinheiro honesto para comprar o que muito bem lhe apetecer. Mas porque bastaria competência publicitária, intuição sociológica e sensibilidade política em tempos de crise para saltar aos olhos e ouvidos que o conteúdo e a forma eram totalmente inadequados para uma promoção fora do "mundo da moda".

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