Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião

[529.] O que significa gozar com os cartazes autárquicos

Já terão pensado os gozadores dos cartazes autárquicos que se uma candidatura duma localidade pobre do interior recorresse a uma agência de "bom gosto" e fizesse um cartaz com muita pinta seria escorraçada pelos eleitores, que veriam no cartaz algo que não é seu e que lhes pareceria falso?

  • Assine já 1€/1 mês
  • 6
  • ...

Com a cobertura nacional das campanhas autárquicas quase reduzida a zero, as atenções mediáticas concentraram-se nos cartazes eleitorais dependurados pelas rotundas do país. As redes sociais exponenciaram esta divulgação nacional, porque coube aos utilizadores divulgarem materiais de propaganda dos lugares mais recônditos - isto é, mais recônditos em relação aos lugares onde os media estão: Lisboa e Porto. 

 

Nunca uma candidatura da Chamusca ou da freguesia de Picha tiveram tanta divulgação como neste período eleitoral. Nunca candidatos políticos foram tão achincalhados pelo seu aspecto físico. Nunca a pequenez da vida política nas pequenas unidades políticas do país foi tão gozada pelos media nacionais.

Os cartazes autárquicos cumprem aqui, paradoxalmente, o seu papel: uma só imagem, acompanhada de um nome e de um slogan, é suficiente para uma análise sumária do estado da política local e para avaliar a candidatura.

 

Mas os ecos da campanha nos media nacionais também revelam, e muito,

sobre os próprios media nacionais. Porque nós, aqui em Lisboa e no Porto, não conhecemos a realidade local. Não conhecemos o "resto" do país. Não o estudamos. Não o relatamos. O que está nos cartazes nestes dois meses eleitorais é o que o país é o ano inteiro, o século passado e este século.

 

Interessados apenas na "grande política" do governo, do parlamento, da troika e das grandes empresas, os media nacionais deixam para trás o território humano a que se convencionou chamar o "país real". E, quando os cartazes lhes chegam pela Internet, ó espanto!, há outro Portugal.

 

A reacção mais fácil é gozar. Gozar com nomes de candidatos. Com slogans infelizes. Com fotografias de péssima qualidade. Com promessas estranhas. Há nas reacções a alguns cartazes uma reacção visceral compreensível, pois alguns contêm em si uma comicidade inescapável. São cómicos porque são. Mas o gozo nos media nacionais vai mais além, contém uma avaliação do que é politicamente correcto, e é também sinal de desconhecimento do país, e, pior, de desinteresse. Nenhum foi investigar se a promessa de uma nova casa mortuária num cartaz faz sentido para a população local. Pode ser, porventura, a mais sentida necessidade na terra, mas é mais fácil gozar.

 

Há nesta reacção mediática um sinal da assimetria entre a política tida como a importante e a política tida como desinteressante e mesquinha.

 

Seria mais útil procurar realidades muito reveladoras, como fez o Negócios com os cabeças de lista que desistirão para os números dois, impedidos por lei de se recandidatarem. Esse subterfúgio revela - tal como os cartazes todos - que a política local, tal como a nacional, está absolutamente centrada em pessoas. Em muitos casos, os partidos não contam. Vota-se em pessoas. As candidaturas autárquicas independentes resultam em 65% de dissidências partidárias, como revelou um estudo no Público. Quer dizer, os partidos são veículo obrigatório da política, mas no caso autárquico é mais visível esse espartilho legal-constitucional quando se formam candidaturas independentes, que mais propriamente são ex-partidárias, ou quando determinados candidatos mudam de partido como quem muda de camisa para poderem recandidatar-se.

 

Os cartazes, maus ou bons, feios ou bonitos, espelham essa realidade política que necessitaria de mais discussão do que gozo: as caras e os nomes de pessoas aparecem em grande, os símbolos partidários são pequenos detalhes no canto dos cartazes. Terminada a era das ideologias, a personalização da política já ultrapassou a sua formatação legal em partidos.

 

Em artigo anterior, antecipei a onda de gozo aos cartazes. As candidaturas locais não têm dinheiro, e provavelmente não precisam nem querem recorrer às agências publicitárias nacionais e internacionais, urbanas e modernas, que, pelo seu peso na comunicação transnacional, definem o "gosto" e, portanto, o "bom gosto" verbal e estético que os media nacionais assimilam e redistribuem. Mas o "país real" não quer saber disso. Tem as suas lógicas próprias. Já terão pensado os gozadores dos cartazes autárquicos que se uma candidatura duma localidade pobre do interior recorresse a uma agência de "bom gosto" e fizesse um cartaz com muita pinta seria escorraçada pelos eleitores, que veriam no cartaz algo que não é seu e que lhes pareceria falso? 

Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias