Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 19 de dezembro de 2013 às 00:01

[541.] Publicidade a relógios de pulso

Para se ver relógios de pulso sem entrar numa relojoaria basta folhear as revistas no período natalício. Também há jóias e bebidas alcoólicas, mas os relógios de pulso pulsam mais na publicidade de Natal.

 

São anúncios em geral conservadores na apresentação, pois o próprio produto já se vai transformando menos num objecto para ver as horas do que num atributo de prestígio ou num sinal exterior de classe ou de gosto. Já há objectos para colocar no pulso que são também instrumentos de comunicação. E vê-se mais gente com telemóvel, que informa as horas, do que com relógio de pulso. A publicidade aos relógios de pulso, em especial os das marcas caras, tem por isso de os inscrever no âmbito da tradição e de uma exibição suave de estatuto social. Não admira que alguns anúncios de relógios se repitam de ano para ano: tal como os próprios relógios, têm de contrariar a natureza da publicidade — a novidade — para acentuar a tradição, a continuidade. Os anúncios de Patek Philippe são exemplares, centrando-se na passagem dos relógios de geração em geração: o instrumento concretiza o amor familiar, mas também, se for preciso, para ver as horas. Outros reclames sublimam a tradição chamando para os reclames a antiguidade dos fabricantes. O relógio da "Interlocking Collection" de Gucci, com um desenho arrojado, nem precisa de facilitar a leitura das horas: trata-se de um mero objecto estético para cumprir a função social e de gosto.

Algumas marcas sentem a necessidade de se demarcar criando modelos temáticos, como o "Tissot Alto Douro Vinhateiro Património Mundial". Do ponto de vista utilitário, a imagem alusiva no verso do relógio de nada serve: só se pode ver com o relógio fora do pulso. Estas edições especiais acentuam o carácter do relógio como jóia masculina, desligada da função original de mostrar as horas.

Ao contrário das marcas de relógios caros, associados ao luxo e à ostentação suave, as marcas de relógios mais baratos têm de reforçar características de diferenciação ou de patentear com mais evidência elementos ideológicos. É o caso dos relógios Ego. Os anúncios visam os adultos jovens, profissionais e activos no lazer. O próprio nome da marca é já uma massagem ao indivíduo que gosta ou precisa de gostar de si acima de todas as coisas; em letras enormes, um dos slogans filosóficos, tipo Paulo Coelho, acentua essa intenção dos publicitários: "Falta de ambição é achares que já tens tudo o que queres." Por trás das palavras, um guitarrista de punk rock ilustra a mensagem. Para combater a falta de ambição, há que comprar um ego, ou um Ego.

Talvez, lá no fundo, no fundo, como diria o tio Freud, os publicitários de relógios achem que comprar um relógio é coisa de heróis. Só assim explico o anúncio de Hector H, que mostra um bombeiro de costas combatendo as chamas e que diz no slogan, ao lado do mostrador enorme, "Today heroes", traduzido por "heróis de hoje" (não deveria ser "Today’s heroes", ou "Heroes of today"? Assim mais parece "heróis hoje" do que "de hoje"). A importância do relógio de pulso como instrumento útil vai diminuindo; quem o usa é um herói, tal como os publicitários que o vão mantendo com beleza e surpresa nas páginas da imprensa.

Ah!, e, como sempre, todos os relógios são mostrados às 10h10. O tempo parou para todos nessa hora mágica de perfeição estética dos ponteiros.

Nota: há duas semanas, baseado numa notícia de jornal, duvidei que Famous Grouse tivesse uma campanha em torno dos rótulos individualizados. Errei. É, de facto, uma campanha. Aqui ficam as desculpas aos leitores, publicitários e anunciante.

eduardocintratorres@gmail.com



 

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