Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 02 de abril de 2014 às 21:00

[555.] BES: "Recuperar a Esperança"

Que boa ideia: ir para uma aldeia honesta, linda, isolada, pobre e envelhecida e praticar a dádiva, restaurando a igreja, arranjando as ruas, ajudando as pessoas. Foi o que fez o BES e colocou a aldeia no mapa do conhecimento nacional, através de uma enorme campanha publicitária.

 

Como foi escolhida a aldeia? As suas características físicas e humanas ajudaram, mas foi certamente o seu nome, belo e singelo, que determinou a escolha: Esperança. No concelho de Arronches, distrito de Portalegre, a freguesia encosta com Espanha e sobrevive da agricultura. O que mais a distingue de tantas outras aldeias do interior é o nome. Esperança: futuro, fé, desejo, confiança, expectativa. A crise que continue, mas que a combatamos, que haja esperança, e, para isso, que haja esperança no ser humano, ultrapassando a ruindade do modelo de capitalismo financeiro que a cada dia nos sufoca mais, que nos afasta uns dos outros ao colocar entre nós, nas relações humanas, o dinheiro como a realidade que as determina. 

 

Como contrariar esta mercantilização da vida, das relações humanas? Pelo dom, pela dádiva: dar-se, dar-se a pessoas, sem a obrigação de receber em troca. O BES foi, pois, para Esperança, concelho de Arronches, a contar com o significado superior do nome da aldeia. O slogan diz tudo: "Estamos a Recuperar a Esperança". A frase seguinte evita a palavra crise ao falar dela: "Nos tempos que correm é difícil acreditar, mas a esperança existe". A própria publicidade encarrega-se de materializar o valor esperança: "É real. É uma aldeia no Alentejo, bem no coração de Portugal." O coração é chamado ao texto por razões emocionais, pois o mapa não tem coração e, se tem, não é em Arronches. A bem dizer, o coração de Portugal está em Arronches e em todo o Portugal, pois onde pulsa um coração português está Portugal. A metáfora cardíaca, portanto, funciona bem nestes anúncios.

 

Para esta campanha, era essencial a prática do dom. "Em equipa", diz o BES, tipo organização não-governamental. O trabalho realizado está a embelezar a aldeia, a melhorar a vida dos esperancences, a dar trabalho a desempregados locais: a recuperação do Centro de Saúde e de duas ruas, o apoio a três famílias carenciadas e as obras na Igreja Matriz materializam a esperança em Esperança. As obras na igreja associam a esperança à fé religiosa: um operário, enquanto passa um balde de cimento, diz que o trabalho veio a calhar, e que "foi Deus"; a publicidade diz que, com o restauro, "os esperancences terão de volta o brilho que lhes ilumina a fé".

 

Quando se faz um dom a retribuição não é obrigatória. O BES proporciona-a, ao promover em Esperança sessões de divulgação dos seus produtos bancários, quer para todos, quer na escola local. Mas a principal retribuição da aldeia de Esperança ao BES foi ela mesma: deu-se à campanha com o nosso "coração de Portugal", e neste caso, o generoso coração alentejano. E, por via indirecta, Esperança deu ao BES muito mais ainda: deu-lhe o nome para juntar a Esperança e a sua existência física à idealização da luta contra a crise; deu-lhe a possibilidade de se associar a valores altos, como a solidariedade, crença positiva no futuro e fé religiosa; deu-lhe a possibilidade de, pela dádiva, se humanizar, descer do capitalismo financeiro para junto de pessoas autênticas, entre casas caiadas e terra castanha pintada de oliveiras.

 

Banco que tem passado por crises internas, por inúmeros "casos" em Portugal, Espanha, Angola, Brasil e Estados Unidos, o BES precisava de se humanizar, de se ligar às pessoas, de descer da imagem de opacas operações financeiras para a transparência do chão de terra e gente. Ao fazer de Esperança uma aldeia global portuguesa receptora do seu dom, o BES procura receber dela, como contra-dádiva, o máximo que 300 habitantes num lugar perdido lhe poderiam dar: a esperança em si mesmo, de recuperar para o próprio BES a imagem de uma instituição inscrita no social e não no topo de operações do capitalismo financeiro que geraram a crise e a desesperança.

 

eduardocintratorres@gmail.com

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