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[567.] BES, Tag Heuer, Adidas, Água Castello

A mistura do mundo real com a publicidade nem sempre dá certo.

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Dois meses depois da visita do Presidente da República e do ministro da Educação à aldeia-montra da publicidade do BES no Alentejo, o Ministério do mesmo Nuno Crato anunciou o fecho da escola local. Faz aflição que o ministro da pasta fosse fazer a festa da educação a Esperança encarregando-se o seu Ministério do enterro da escola dois meses depois. Foi também estranho que, quer o ministro, quer o chefe do Estado, se tivessem envolvido numa iniciativa duma empresa comercial, por mais meritória que fosse e que seja, para mais quando o banco já atravessava uma grave crise de credibilidade.

 

Quanto ao BES, a entrada no mundo real com esta campanha, de concepção interessante, tem o problema de a realidade poder pregar partidas ao mundo maravilhoso da publicidade. Mesmo sendo o BES alheio ao fecho da escola de Esperança — onde o banco fez uma sessão para as crianças —, o encerramento não ajudou os objectivos de transmitir felicidade, confiança, estabilidade. Azar.

 

Segundo azar, ainda para o BES, com a campanha em que Ronaldo contracenou com a actriz Rita Blanco, representando o papel de uma D. Inércia. Uma vez mais, a realidade, presente com Ronaldo a representar-se a si mesmo, traiu uma boa campanha. Dada a performance medíocre de Ronaldo e da Selecção no Mundial, não faltaram comentários sobre a responsabilidade de "D.Inércia" nos resultados futebolísticos da equipa capitaneada por Ronaldo.

 

A marca de relógios Tag Heuer também teve azar no slogan escolhido para ilustrar um reclame com Ronaldo, em pose aérea espectacular, equipado de branco, isto é, em pose preparada para a publicidade: "Não ceda sob pressão". Pois foi mesmo o que aconteceu no Mundial: Ronaldo cedeu sob pressão. A marca suíça poderá sempre dizer que ele não levava o seu relógio Tag Heuer.

 

A realidade também feriu a Adidas, um dos maiores gastadores mundiais entre os patrocinadores do futebol FIFense. Depois da dentada do seu contratado Luis Suarez a um jogador italiano, o Photoshop fez maravilhas e as marcas dos dentes do uruguaio foram transformadas no símbolo da Adidas, com grande êxito nas redes sociais. A FIFA suspendeu o jogador e a Adidas viu-se forçada a suspendê-lo na sua publicidade durante o Mundial, mas, tal como a FIFA não o afastou para sempre, a marca alemã também não interrompeu o contrato com ele. É intervalo.

 

Azar, também, o da Água Castello, que se viu coagida a suspender uma campanha depois de a agência de publicidade Strat ter sido acusada de plágio do estilo e desenhos de um autor de BD, Charles Burns. A sua editora pôs no seu site os anúncios de Castello acompanhados de desenhos de Burns. Os publicitários, habituados a imitar, copiar, parodiar, pastichar, aludir e adaptar todo o tipo de imagens da cultura popular e erudita, já julgam que o plágio não é plágio só porque eles não querem que seja visto assim, e pronto. O director criativo da Strat reconheceu implicitamente a inspiração no trabalho de Burns, ao dizer apenas, com a costumeira arrogância dos criativos, que "no mundo da publicidade todos os dias os criativos de todas as áreas em vários pontos do globo servem-se de referências cinematográficas, fotográficas e de outras expressões artísticas para o desenvolvimento do seu trabalho". Pois é, "servem-se". E, se não lhes interessa que o plágio seja chamado plágio e preferem que seja considerado outra coisa qualquer — que eles decerto acham muito gira e que lhes serve para facturar —, para o resto do mundo o plágio ainda existe como categoria na inspiração em obras anteriores. Azar.

 

eduardocintratorres@gmail.com

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