Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião

[568.] BPI: "O Meu Banco. O Meu Futuro"

A família ideal de agora — casal jovem, rapaz e rapariga — passeia alegre num campo de ervas ao sol. As crianças correm, o casal segue-os trocando carícias nas mãos dadas.

 

Mas, oh!, aproximam-se, com o auxílio da câmara rápida e efeitos digitais, nuvens negras e carregadas. Situação de perigo: os semblantes preocupados do casal, em grande plano, dizem-nos que há crise. Juntam-se os quatro, como quem não sabe o que fazer, enquanto a sombra da tempestade se aproxima deles em estonteante velocidade. Depois do torpor, correm, por fim, como se não houvesse amanhã, e estivessem, como estão, num filme de acção e aventura. Travam a corrida e olham admirados: uma árvore!, uma árvore grande e velha. É o BPI! Não sei que árvore é, parece-me um carvalho com laranjas, frutos maduros nas ramadas altas e dignas, depois há um tronco que parece doutra árvore, mas não interessa. Correm de novo e protegem-se sob a árvore. A chuva começa. A família olha para a crise aquática, em forma de pingos, com horror, como quem olha para o 11 de Setembro. Em plano vertical, a árvore BPI, lá em baixo, é a última a ser envolta pela crise de nuvens negras. Mas não podia fugir-lhe. Enfrenta-a, porque as árvores, se morrem de pé, também vivem de pé. Chove a cântaros. Contudo, milagre!, a família, enxuta, deixa-se ficar sob a divina árvore. O homem aproxima-se do tronco de casca dura e rugosa e acaricia-o, agradecido, com admiração e erotismo, como o protagonista de "A um Deus Desconhecido", de Steinbeck: a árvore BPI é o deus protector e dador de frutos que se ama e venera.

 

E, de novo quietinhos, olham os quatro para os céus que se abrem em raios de sol atravessando os ramos velhos. Passou a crise. Regressam ao passeio no campo. A mulher ainda se volta para trás, admirando uma última vez a árvore BPI que salvou a família da tempestade, que esteve lá quando era preciso, agora já não se daria por ela, mas não a esquecerá. Voltamos ao plano da árvore esplendorosa ao sol, mas, desta vez, ela identifica-se: três quadrados sobrepõem-se-lhe nos ramos para mostrar reconhecimentos recentes do BPI, "Melhor grande banco", etc., depois substituídos pelo logo do banco, com a flor branca sobre fundo cor-de-laranja. A música termina; juntou-se-lhe um chilrear de passarinhos. A voz off, voz de deus, chega a tempo de dizer o slogan: "BPI. O Meu Banco. O Meu Futuro".

 

Uma versão coral da balada "Perfect Day", de Lou Reed, acompanhou a narrativa. Um dia perfeito, estranha escolha para um anúncio que pretende narrar simbolicamente três anos de crise e a salvação passada e futura dos depositantes e accionistas. Mas os publicitários têm o seu próprio universo, de que nunca se afasta a ideia do dia, do dia perfeito que se agarra. Ou talvez fosse só porque a melodia é bonita e a versão — de que não se percebem as palavras em inglês — transmite paz e beleza transcendente. Ou talvez fosse, ainda, porque a música e a majestade da paisagem e da árvore quisessem simbolizar a serenidade do BPI árvore durante a crise, a sua resistência durante a tempestade, os seus braços protectores e tronco duro e atraente, manto divino sobre accionistas e depositantes. Agora, diz o anúncio, passou a crise-tempestade, e o banco, que lhes foi presente durante o tempo mau, proclama-se-lhes, vitorioso, como o seu fruto futuro.

 

Moral da história: você estava despreocupado, a crise apanhou-o desprevenido, o banco estava sólido, protegeu-o, agora volte à vida de antes, mas não esqueça o banco.

 

A imagem da tempestade num campo despido e a protecção simbólica do cliente não é novidade, mas o BPI regressa à publicidade televisiva com orgulho pós-crise num reclame bonito, bem produzido e realizado e com uma carga simbólica bem narrada e ilustrada. (Só gostava de saber que árvore é aquela.)

 

eduardocintratorres@gmail.com

Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias
Publicidade
C•Studio