Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião

[635.] Ikea, Breitling, IWC, Gant, Raimond Weil

"A caminho de Belém", diz, com muita oportunidade, um anúncio do Ikea espalhado pelos mupis urbanos. O produto anunciado - uma lanterna para vela - apenas serve de pretexto para dar o arranque à campanha comercial destes hipermercados com um piscar de olho à próxima campanha presidencial.

  • Assine já 1€/1 mês
  • 1
  • ...

O Natal, tão cedo, é insuportável para  muita gente. Vi até uma foto dum manifestante nos EUA com um cartaz dizendo "Parem com as campanhas de Natal antes de tempo"; mas não há como escapar às massivas campanhas publicitárias nesta época. As marcas não querem saber do Natal para nada, apenas lhes interessam as vendas que os consumidores fazem por causa do Natal.

 

As marcas de relógios também começam a bombar publicidade nesta época, para ir habituando os olhares dos potenciais compradores. Não mencionam o Natal, apenas aparecem mais nos espaços publicitários.

 

Nestes primeiros dias da "época de Natal", já há dois relógios que se apresentam como lendas. "A lenda cresceu", diz o título do reclame de um relógio Breitling. Não há cá explicações, porque a página inteira serve para mostrar em pormenor o mostrador e a pulseira. Para se entender porque cresceu, há apenas a frase de fecho, em baixo, à saída do reclame: "O novo Navimeter 46mm." Cresceu a dimensão do mostrador; como o relógio é apresentado como lenda, logo, a lenda cresceu.

 

O anúncio do relógio Portuguesa Automático, de IWC, é mais palavroso. O título, grande, define-o como "A lenda entre os ícones". Também poderia ser "a lenda entre as lendas" ou "o ícone entre as lendas" ou até "o ícone entre os ícones", porque o relógio se apresenta como um ícone, uma imagem talvez sagrada, como uma lenda, e porque faz referência - "what else?" - às "ousadas viagens dos Descobrimentos empreendidas pelos marinheiros portugueses", que "são motivo de histórias épicas", e, portanto, também icónicas ou lendárias.

 

Essas viagens são narrações, pois, segundo o texto, "o Portuguesa Automático é outra narração", esta "mais moderna", mas também "de coragem e determinação", vá-se lá saber porquê Qual a coragem e determinação na criação deste relógio? Não sei, e sinceramente gostava de saber. Porque se chama o relógio "o Portuguesa Automático" e teve o seu primeiro modelo há 75 anos? O anúncio não explica. Provavelmente é para entendidos, apesar da sua grande divulgação em páginas inteiras. Apesar de palavroso, prefere não nos dizer. Mas é franco: "Preferimos não entrar nas memórias das antigas lendas, mas continuar, simplesmente, a escrever a nossa própria lenda." Ora, em termos literais, é precisamente isso que o anúncio não faz: não escreve a própria lenda deste modelo de relógio. Uma pena. Estava o anúncio a ser tão didáctico e perdeu-se no caminho da sua retórica.

 

O reclame dum relógio Gant é interessante porque escolheu fotografá-lo em cima duma manga duma camisa branca. Como o relógio é quase todo preto, faz um belo contraste. Mas o detalhe da camisa é curioso. Primeiro porque foge à representação comum do relógio num pulso de homem. O homem desapareceu e ficou a camisa. Não só a fotografia é bonita esteticamente, como pisca o olho aos mais ciosos com o "look": olhem que bem que fica o Gant com uma camisa branca!, diz-lhes.

 

A minha preferência pessoal, porém, vai para um anúncio de relógios Raimond Weil, e nada tem que ver com relógios: o grande destaque fotográfico vai para Frank Sinatra, um dos maiores génios do pop-jazz vocal, do século XX, cujo centenário de nascimento se comemora em 15 de Dezembro. O anúncio tem um texto um pouco irritante, mas, como é a propósito de Sinatra, eu desculpo. É uma homenagem, diz o anúncio "ao derradeiro ícone da música". Um ícone, cá está o conceito de volta. Também podiam dizer que Sinatra é uma lenda que eu agradecia. 

Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias