Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 13 de abril de 2016 às 20:36

[656.] Banco CTT; Bankinter

Eis um retrato da banca em Portugal hoje, em anúncios: o David português "começa do zero" e o Golias espanhol chega "com mais de um milhão de clientes".

O Banco CTT abriu ao público com uma campanha centrada em cavalos. O novo estreou-se com o velho. A publicidade recorre habitualmente aos aspectos positivos da vasta e antiquíssima simbologia do animal. Ele é montada dos deuses, poderoso, enérgico, belo, solar, majestoso. É poder, mas controlado pelo homem, de quem é inseparável. Tudo isto convém à publicidade do Banco CTT. Banco novo, de sangue puro, como os lusitanos da campanha, inseparável dos clientes e montada deles. Tão inseparável que a mitologia utilizou o centauro, em que o homem (cliente) se funde com o cavalo (o banco). O centauro simbolizou o Banif, banco que jaz morto e arrefece no Santander e no IRS dos contribuintes.

 

O Banco CTT tem uma razão suplementar para voltar ao cavalo cansado da publicidade: montado pelo mensageiro, está há muito no símbolo dos Correios. Tristemente, os CTT usam o cavalo nos anúncios no exacto momento em que o fizeram desaparecer do símbolo do seu novo banco.

 

O filme publicitário também é velho, mas está bem realizado. Lá vai uma amazona,  galopando obstáculos pelos campos e pela cidade, até entrar num edifício pós-moderno onde pode realizar o sonho da sua vida com uma conta-poupança ou um empréstimo para o negócio, selado, não com um passou-bem, mas com sentimentalidade amorosa: a amazonas desmonta e dá um abraço, sei lá, ao gerente de conta (ou será o seu sócio, no amor e nos negócios?). Tudo bem feito, mas a repetição estafada do cavalo, apesar da beleza do animal e das imagens, diminui o impacto. E, quando se espera ver o logótipo do Banco CTT com o cavalo, o animal desapareceu. Pior é o cartaz com dois homens de fato, gravata e barba montando cavalos lado a lado - é o cliente, é o banco - num relacionamento mais erótico do que empresarial.

 

Há um lado de pequeno David que aprecio na honestidade do banco ao afirmar nos anúncios que "começa do zero". Já o banco espanhol Bankinter, que chega de rompante a Portugal, afirma peremptoriamente que tem um milhão de clientes. A sua publicidade está muito espalhada, mas é "low profile". Às pessoas deu-lhes para desconfiar da banca, pelo que um novo banco no mercado tem de mostrar-se credível. Alardear o número de clientes é outra prática corriqueira na publicidade. Se uma firma tem muitos clientes é porque, suporá o observador, confiam nele. O Bankinter apresenta-se discretamente, mas como um gigante Golias que já tem um milhão de clientes no momento em que abre portas em Portugal.

 

Sendo desconhecido apesar do milhão de clientes, compreende-se que o anúncio televisivo do Bankinter comece com um homem a dizer-nos: "Talvez não conheça o Bankinter." Enquanto fala, passa da sua secretária no banco para fora da agência e vai passando por situações relacionadas com actividades empresariais, incluindo pôr na cabeça o estafado chapéu de andar nas obras. E termina na sala de reuniões duma empresa. Em vez de o percurso ser da empresa para o banco é do banco para a empresa; o banco sai à conquista de clientes. No anúncio do Banco CTT é a cliente montada que vai ao banco. Mas à parte essa diferença, a publicidade do Bankinter é ainda mais estafada do que o recurso ao cavalo como símbolo. Já vimos pelo menos uma dúzia de anúncios bancários com este tipo de percursos velozes por empresas marítimas, agrícolas, industriais e de serviços.

 

O anúncio termina com a chegada do Bankinter a Portugal: o homem está num ponto elevado e vê Lisboa a seus pés (exactamente como num anúncio doutro banco espanhol, o Popular). O Bankinter revela-se: é espanhol e quer dominar Portugal. 



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