Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 09 de maio de 2018 às 21:58

[753.] Audi

Em duas páginas consecutivas, o anúncio funciona como que em efeito visual, pois, ao virá-las, o leitor põe o carro em movimento: ele como que passou por nós na rua. A visão seguida das duas fotos cria esse efeito mental.

O slogan fala comigo: "Todo o futuro à sua frente." E à minha frente estava a primeira página do semanário Expresso, coberta pelo anúncio de Audi A7 Sportback. Para chegar à primeira página efectiva do jornal havia ainda a segunda página do anúncio. Páginas inteiras: anuncio glorioso.

 

Dada a dispersão das pessoas por mil e um media, os anunciantes têm de optar por estar presentes em muitos deles ou concentrar-se com estrondo num só, como neste caso. As primeiras páginas dos jornais, um espaço mítico da civilização moderna, são hoje ocupadas com frequência por estes anúncios enormes. São impactantes. Ao embrulharem o jornal propriamente dito, mas ostentando ainda o cabeçalho do jornal, associam o mito da imprensa a si, a sua seriedade, adquirem uma notoriedade que presumo fantástica, e contribuem, sem a beliscar, para a economia do jornal e da imprensa. Sou um grande apoiante desta forma de publicidade que, a meu ver, não prejudica de forma alguma o carácter jornalístico e a independência informativa da imprensa. Todas as partes envolvidas - anunciantes, jornais e leitores - têm inteligência para o entender. Gostei, pois, de ver o anúncio de Audi A7 formando as duas primeiras páginas do Expresso.

 

O slogan, como disse, parecia falar directamente com o leitor, mas, sendo a língua traiçoeira, "à sua frente" também poderia querer dizer que "todo o futuro" está à frente do próprio carro e não de mim. É o que sugere o resto do título do anúncio em letras mais pequenas: "Novo Audi A7 Sportback. Antecipa." Quem antecipa? Ele, o carro? Ou agora o anúncio trata-me por tu? A coisa só ficará clara na página seguinte do anúncio. Aqui parece que me trata por tu e que é suposto ser uma ordem para eu antecipar. Se fosse a respeito do carro a forma verbal não deveria estar depois de um ponto. Consultei o anúncio da campanha em inglês para confirmar: o verbo antecipar está de facto no imperativo, tal como sucede na segunda página deste anúncio ("Aproveite", "atreva-se"). Quer dizer, o anúncio tem um erro, pois deveria ser "Antecipe." Tendo em conta a força que se pretendeu atribuir à mensagem, sublinhada pela ocupação da primeira página do jornal, o erro de escrita é incrível, dada a importância atribuída ao anúncio. O erro anula parte da força da mensagem, que era acrescentada pela posição frontal do carro em relação ao observador, correspondendo às palavras "à sua frente". A eficácia comunicativa do reclame passou por esta frontalidade do carro na fotografia. O carro está à minha frente, como diz o slogan, numa rua de Nova York em que não se vê vivalma. Os prédios acentuam a verticalidade da foto, quebrada pela horizontalidade do carro.

 

Quando viramos a página, o carro surge visto de trás, à mesma distância próxima. O slogan anterior é substituído por este: "O futuro passa depressa. Aproveite."

 

Em duas páginas consecutivas, o anúncio funciona como que em efeito visual, pois, ao virá-las, o leitor põe o carro em movimento: ele como que passou por nós na rua. A visão seguida das duas fotos cria esse efeito mental. O carro "passou". É por isso que o slogan diz que o futuro "passa depressa": para o leitor, o carro como que "passou" por ele ao virar a página. Na mensagem que o reclame pretende inculcar, o novo Audi A7 é o futuro e ele passa depressa, pelo que se insta ou impele o observador a aproveitar e a atrever-se a experimentar (depressa!) esse dois em um, o novo modelo e o futuro, finalmente reunidos no texto: o carro é definido como "o automóvel que o futuro anda a seguir."

 

À parte a estranha dualidade nas formas de tratamento, por tu e por você, o anúncio é eficaz na mensagem e no meio de contacto com o público-alvo. Que venham mais primeiras páginas!

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