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[458.] EDP

A campanha publicitária da EDP com filhos de empregados da empresa suscita-me três reflexões.

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A campanha publicitária da EDP com filhos de empregados da empresa suscita-me três reflexões: o poder dos grandes anunciantes; o uso de crianças na publicidade e a impunidade dos infractores; a resistência política ou outra contra os anunciantes utilizando os próprios anúncios.

A campanha da EDP é avassaladora. Não se pode dar um passo, abrir um jornal ou navegar num ecrã sem se se ver os meninos da EDP. Só as empresas enormes têm este poder de comunicação conferido pelo dinheiro. Através da omnipresença e da repetição maciça, atingem uma inculcação da mensagem numa sociedade inteira. São raríssimas as entidades ou instituições com este poder: talvez o Governo, decerto alguns clubes de futebol e com certeza absoluta os maiores anunciantes, como EDP, PT, Galp, Continente, Jerónimo Martins, Optimus e Vodafone.

Através da publicidade, conseguem naturalizar as mensagens - desde que estas sejam consensuais - no nosso corpo, da pele ao cérebro. Mais do que isso, através do seu poder económico e das agências de "comunicação", têm a possibilidade de neutralizar ou até de orientar alguma imprensa. Se esse é um preço a pagar pela liberdade de imprensa, é perturbador quando ocorre com empresas com orçamentos brutais extensíveis a todos os media.

Uma demonstração de força dos maiores anunciantes ocorre com as decisões da CAEM a respeito da audimetria em Portugal. Os maiores anunciantes dominam o processo decisório; os operadores de TV estão à sua mercê. A violência dos anunciantes em comunicados contra o anterior fornecedor da audimetria e mais recentemente contra a RTP mostra o à-vontade de quem quer aplacar os hereges, mais do que justificar decisões. E, face às notícias negativas, correctamente informadas, sobre os resultados audimétricos do operador escolhido pela CAEM, escolhido principalmente pelos maiores anunciantes, parece ter entrado em cena alguma agência de "comunicação", pois já se notam em alguma imprensa notícias enviesadas sobre todo o processo.

A segunda reflexão tem que ver com o uso de crianças nos anúncios da EDP. Conforme referiu Paulo Morais na Rádio Renascença, esta campanha "é manifestamente ilegal" por violar o preceito do Código da Publicidade pelo qual "os menores só podem ser intervenientes principais nas mensagens publicitárias em que se verifique existir uma relação directa entre eles e o produto ou serviço veiculado." O mesmo comentador alertava ainda para a passividade do Estado quando toca a agir perante os grandes anunciantes: previu que nem a Direcção-Geral de Consumidores nem o Ministério Público tomarão qualquer iniciativa. A passividade da GGC é, de facto, confrangedora.

A terceira reflexão relaciona-se com o falso anúncio da EDP que de imediato começou a correr nas redes sociais. Em vez de um menino branco, ocidental, a dizer que o pai é um génio ou a mãe é mágica, este cartaz falso mostra um menino chinês dizendo "O meu pai manda nos vossos pais". E identifica-o como "lim popo, filho do dono da EDP".

A falsificação funciona, apesar do toque chauvinista, mas o que me parece mais interessante é a utilização da publicidade para a desmascarar através da própria linguagem original, transmitindo uma mensagem política ou um simples desabafo. A disseminação viral nas redes sociais deste tipo de materiais é uma forma de resistência contra a hegemonia dos mais fortes e poderosos e contraria a ideologia das suas mensagens. Este cartaz falso, que vi uma dúzia de vezes no email e no Facebook, não é o primeiro nem será o último caso.


etc@netcabo.pt
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