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Eduardo Cintra Torres eduardocintratorres@gmail.com 23 de Fevereiro de 2007 às 13:18

Repsolgas

Os anúncios da Repsolgas destinados a afirmar a marca no segmento do gás surpreendem pela qualidade estética de imagens do quotidiano. Conhecida pelas gasolinas, a Repsol investiu fortemente em TV e na imprensa.

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Os anúncios da Repsolgas destinados a afirmar a marca no segmento do gás surpreendem pela qualidade estética de imagens do quotidiano. Conhecida pelas gasolinas, a Repsol investiu fortemente em TV e na imprensa.

A campanha pretende dizer-nos "já cá estávamos e você não tinha reparado" em vez de "chegámos!". São imagens calmas, em tons suaves, quase sem movimento. Dos três reclames de imprensa e mupis, o mais conseguido anuncia o gás para consumo caseiro. A foto tem um enquadramento perfeito. A parede do fundo, com a abertura em madeira para a cozinha, apresenta-se ao observador centrada e frontalmente, criando uma simetria que significa calma, harmonia e equilíbrio. Acentuando a simetria, o fogão e o exaustor estão ao centro da abertura para a cozinha. E, mais ainda, o bico aceso está também exactamente ao meio do fogão.

Na sala, um candeeiro à esquerda e um quadro à direita prolongam a harmonia; ambos os elementos estão cortados nos limites verticais laterais, o que permite ao observador imaginar no contra campo a dimensão total da sala.

O cenário completa-se com uma cadeira forrada a pele e um tapete que enquadra a imagem na margem inferior, que, tal como as tábuas do soalho, fornecem linhas de profundidade, a terceira dimensão a um conjunto dominado pela parede de madeira que dá para a cozinha. Todas as cores da casa – do chão, das paredes, dos acessórios, do tapete, da cadeira, das roupas, do fogão, da iluminação – são em tons pastel, suaves, agradáveis sem dar nas vistas.

Os elementos humanos foram colocados de forma a pertencerem à ecologia da imagem. Na cadeira está o homem, com o portátil em cima das pernas. Prolongando uma linha a partir da posição da cadeira e o homem, a nossa vista dirige-se suavemente para o lado direito, onde está em pé, a mulher, com o bebé ao colo. A rapariga parece uma Madonna, salientando-se o efeito alcançado coma sua desfocagem: de novo a quietude, a singeleza, quase uma vontade pressuposta de não chamar a atenção. A imagem sugere descontracção, conforto, intimidade.

E sugere uma família moderna em que se finge não se fazer trabalhos caseiros: ela leva a criança nos braços com ar de amor, não de quem vai mudar a fralda; ele olha para o portátil como quem vê e-mails com piadas giras, não um relatório que sobrou para ler em casa; e o fogão cozinha sozinho, sem precisar da assistência dela ou dele.

Os outros dois anúncios seguem o mesmo figurino. Numa esplanada vazia já de noite, a cliente está sentada só, sorrindo, junto de um aquecedor exterior a gás. Junto dela, o empregado traz a bebida, mas apresenta-se estático, como numa composição pictural antiga. O único movimento está novamente desfocado: é o de uma ave, talvez de pedra, no lago junto à esplanada. No terceiro reclame, uma cozinha de restaurante. Apesar do trabalho, apenas o empregado desfocado (à esquerda, para contrariar os outros dois anúncios) revela maior movimento.

Nestes dois reclames, tal como no primeiro, a única cor de realce é o azul do gás aceso, efeito extraordinário tendo em conta que o azul é uma cor fria. De resto, só cremes e castanhos. Movimentos subtis. Há uma presença do gás que de outra forma passaria despercebida, como a da própria Repsol neste segmento do mercado. Tudo é suave, pastel, silencioso, harmonioso. Não é difícil imaginar que esta campanha pretende criar o oposto da Galp, a da "miúda do gás"comas suas formas espampanantes, movimentos vibrantes e cores berrantes, com os seus homens da obras e olhares voyeurescos – e com o consequente exibicionismo da marca e do produto. Perante a fanfarra da Galp, a Repsol preferiu fazer trabalho de sapa.

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