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Eurico Brilhante Dias 19 de Abril de 2016 às 19:41

Pior do que está não fica?

O deputado Tiririca votou "sim"; ao seu lado votaram outros em nome de Deus, da santa "terrinha" e até em nome de um coronel de má memória: Ustra. Personagem torcionária que sacrificava presos políticos com especial diligência e crueldade.

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Um país que se mostra dividido e que no seu excesso "golpeia" com assaz violência a ideia de que a representação do povo merece dignidade. Não por um "endeusamento" do exercício do mandato, mas antes pelo respeito que o eleito e as instituições democráticas merecem. Não vai ter golpe gritado pelo PT, é o sinal do deslaçamento e da ruptura. O modo carnavalesco é apenas um sintoma de que a política espetáculo é cada vez mais um "reality show". A realidade ultrapassa a ficção.

 

Mas talvez seja o momento de uma reflexão mais ampla. É evidente que as dificuldades por que passa a economia brasileira e a frustração de uma classe emergente que não quer voltar para trás explicam grande parte do acolhimento que têm tido os adversários do PT. A corrupção - esse sinal de injustiça perante a crise - condimenta o ataque aos que exercem o poder. As urnas parecem não ser suficientes para que a comunidade escolha entre alternativas e deixar que cada mandato seja avaliado no momento certo. A esse respeito, é como se uma democracia direta - de confronto - tivesse uma legitimidade fundada numa espécie da ansiedade colectiva pela mudança.

 

Com diferenças temos visto vingar opções de confronto e ruptura noutras paragens do globo: veja-se o caso do desnorte do "establishment" do Partido Republicano quando olha para o fenómeno Trump e os milhares de votos que granjeia, apesar de uma agenda xenófoba e sexista; ou mesmo o ar incrédulo de muitos quando assistem à resiliência de Sanders nas primárias do Partido Democrata, atacando este candidato Hillary Clinton por ser uma dos da "casta" dos interesses. A campanha pelo "Brexit" do heterodoxo mayor de Londres e o desmantelar do bipartidarismo em Espanha, sucumbindo a novos partidos que prometem apenas a ruptura com o que está, são ilustrações do passo em frente de quem muitas vezes escolhe que tem pouco a perder e que chegou a hora de não votar na continuidade. O risco é sempre calculado a partir de opções reais; a continuidade é, para muitos, má demais para ser opção. Teste-se então - num voto de protesto - a demagogia, que parece ser a opção de muitos.

 

Este desnorte é muitas vezes a antecâmara de regimes que impõem primeiro uma moral, depois um inimigo interno e no fim uma espécie de corpo identitário que confunde o bem-estar da comunidade com a saúde do líder e/ou do partido. O fascismo ou a normalidade da violência praticada sobre o inimigo interno para zelar por um bem superior: a implementação de uma ordem ditada pelo suposto interesse comum. Já vimos este filme.

 

Os Tiriricas de serviço são úteis para mostrar a própria corrupção do modelo de representação eleitoral; os defensores dos "coronéis Ustra" vêm a seguir. Os políticos de "aviário" continuam na inoperância à espera de vender ao eleitorado a continuidade na alternância; só é pena não perceberem que 30% de desemprego jovem e o esmagamento da classe média vai promover uma mudança de lideranças e programas e que a descontinuidade se fará sentir nos parlamentos e nos governos. E acreditem o Tiririca não tem razão. Ele votou "sim" ao "impeachement" e melhor do que está não fica. Mas fica o passo para a ruptura que fará nascer outro sistema de representação social. 42 anos depois de Abril, este é um tema que também nos interessa.

 

Deputado do PS

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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