Fernando Ilharco
Fernando Ilharco 04 de abril de 2017 às 19:55

Um erro fatal a caminho do topo

As pessoas tendem a parar de melhorar, a perder determinação e conformarem-se com o razoável.

Ninguém se torna excepcional porque subitamente descobriu a sua vocação. A investigação corrente sobre alta performance indica que são necessários anos e anos de uma prática dedicada, focada em melhorar e inovar para se chegar ao topo de qualquer actividade. Podem ser as famosas dez mil horas de melhoria. Mas podem ser menos. Ou podem ser muitas mais e não dar em nada.

 

Um dos problemas importantes no caminho para o topo da vida profissional, diz Angela Duckworth, investigadora da Universidade da Pensilvânia, é que as pessoas param de melhorar, perdem determinação, começam a facilitar e conformam-se com desempenhos razoáveis. Quem está bem, não se esforça mais, não melhora mais. É um erro fatal.

 

Se ouvirmos profissionais, artistas e atletas excepcionais vamos notar uma ideia importante comum ao discurso de todos eles: melhorar. Melhorar é o objectivo da prática de todos os dias.

 

Hoje a investigação indica que não há predestinados em área nenhuma da actividade humana. Mozart, Mourinho, Ronaldo, Bill Gates, Picasso, os Beatles, as irmãs Williams, as irmãs Polegar ou outros profissionais de topo mundial não nasceram excepcionais. Tornaram-se excepcionais. Fizeram-se excepcionais mediante um certo tipo de trabalho diário, persistente, focado nos detalhes, querendo melhorar, procurando inovar e surpreender.

 

É importante o ambiente em que trabalhamos. Uma cultura do mérito, focada na melhoria, na criatividade, na inovação e na competição leva mais facilmente mais longe. Mas o decisivo são as melhorias concretas nas pequenas acções no dia-a-dia; melhorar a forma como executo uma tarefa e mais outra e outra ainda; como concluo um pormenor; como me motivo e como giro o meu tempo; como me relaciono com este e com aquele; como descubro oportunidades, etc. Duas a três horas por dia, procurar melhorar alguma coisa, trabalhando nos limites da capacidade, não repetindo o fácil, nem tentando o imensamente difícil, mas antes procurando o difícil, mas eventualmente possível. Esta maneira de trabalhar, recompensadora pela própria aprendizagem, ao fim de alguns anos, tende a levar a resultados extraordinários.

 

A paixão pelo que faço evidentemente ajuda muito. A melhoria contínua é esforçada e muito exigente, tanto mental como fisicamente. E gostar do que fazemos, emocionarmo-nos e envolvermo-nos facilita muito o caminho para o topo. Mas não chega: melhorar é a chave. Não nos devemos esquecer do que Venus Williams, uma das duas irmãs campeãs mundiais de ténis, disse um dia: "Nunca gostei lá muito de ténis."

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

 

Coluna semanal à sexta-feira, excepcionalmente é publicada hoje

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