Fernando Ilharco
Fernando Ilharco 11 de dezembro de 2018 às 20:13

Vertigem, 20 anos

A nova tecnologia gerou a globalização como uma nova forma de compreender o mundo. Ao fazê-lo desarmou populações inteiras da sua maior defesa: a distância.

"Vertigem - Tendências para o século XXI", livro da autoria de Fernando Ilharco, colunista do Jornal de Negócios, fez 20 anos. Um texto sobre mudança, robôs, informação, globalização, tecnologia, que podia ter sido escrito hoje.

 

Ninguém está interessado em nada que demore muito tempo. A história está sempre a desmentir-se num fluxo permanente de factos, acasos, rumores, especulações, imagens, suspeições e contradições. Os bons e os maus mudam de papéis a cada momento. As notícias são sobre as notícias. E quem parar perde (101; a seguir a cada parágrafo, entre parênteses, o número da página do texto no livro de 1998).

 

Se alguém está à espera que a sociedade da informação seja uma espécie de sala de estar, cheia de ecrãs, de computadores, de gente bem penteada, simpática, culta e bem informada, então é melhor sentar-se. (…) A sociedade da informação (…) vai ser a maior confusão de que há memória (143).

 

A nova tecnologia gerou a globalização como uma nova forma de compreender o mundo. Ao fazê-lo desarmou populações inteiras da sua maior defesa: a distância. O espaço não é mais um filtro das histórias, uma barreira antipormenores, ou um mecanismo de desfasamento temporal. O que agora tem que ver com tudo, não é só o que interessa. É também o que não interessa (200).

 

Os robôs não recebem salários

 

Como os robôs não recebem salários, não falam, nem se sentem mal, não recorrem aos tribunais, nem aos media, e ainda por cima são consistentes e insensíveis à rotina, têm à sua espera todas as actividades humanas que são rotineiras, repetitivas e previsíveis. Tanto as actividades físicas - cujo controlo ganharam com a revolução industrial - como as actividades intelectuais - cujo controlo se preparam para receber com a revolução da informação (348).

 

A lógica competitiva do século XXI é a localização global de tudo: marketing, I&D, mão-de-obra, matérias-primas, produção, tecnologia, gestão, finanças, impostos, mercados, etc. Tomando todo o planeta como base, a empresa global relocaliza os seus processos e funções, logo que detecta subidas no rácio "output/input" (58).

 

A informação não é um recurso como os outros. É um anti-recurso. Com informação mais precisa e mais atempada sobre a oferta, a procura, e o processo produtivo, necessitamos cada vez de menos pessoas, escritórios, armazéns, capital, equipamentos para fazer produtos cada vez mais adequados a cada cliente singularmente considerado (304).

 

Quanto mais conhecimento intensivo dão as acções, mais não lineares se tornam; mais fácil é um pequeno "input" em qualquer parte do mundo neutralizar um enorme investimento (311).

 

O roubo de um futuro tranquilo

 

A maioria da população viu ser-lhes roubado um futuro tranquilo. Os desempregados ou "em-breve-desempregados" trocam sem hesitar promessas de bem-estar e de segurança material pela liberdade e pela democracia. A igualdade de oportunidades, a presunção da inocência, o princípio do contraditório, são trocos quando comparados com o que está em causa (52).

 

As ideologias colectivistas foram as primeiras a cair. Mas também já é tarde demais para as democracias parlamentares, que ao ganharem a guerra do velho mundo estão prestes a perder a do novo. Ao libertar a potencialidade criadora e inovadora do indivíduo, a nova tecnologia está a desligar todos e cada um de nós dos representantes tradicionais (61).

 

[Na] fractura mais actual e mais explosiva da América (…) vemos de um lado os partidários da velha América - Deus, família, ordem, autoridade, "os americanos primeiro", etc. Do outro lado, está um novo tipo de sociedade: os partidários não da América, mas de um mundo americano, global e digital (160).

 

A globalização gera dois movimentos simultâneos, mas divergentes, de fuga ao Estado soberano. Por um lado, existe uma substancial transferência de soberania para organizações supra-estatais. Por outro lado, existe uma tendência inequívoca para o deslizar do poder para a região, a cidade e para o local (125).

 

O tempo é outra vez de Descobrimentos. Só que desta vez vão ser ao contrário. Quanto mais os outros nos descobrirem, melhor para nós. Num mundo globalizado, uma das principais actividades dos políticos é "vender" a atractividade dos seus locais. Não é uma moda, nem uma actividade menor. É uma das funções que se perspectivam para um Estado em mutação (242).

 

Os cidadãos anónimos que durante um século foram a fonte de poder das elites, legitimadas através do sufrágio universal, estão a tornar-se a fonte de poder dos novos media, legitimados através das audiências. O compromisso de fundo dos media é com os mercados. O resto são acordos pontuais (92).

 

Quem está onde a fazer o quê

 

O nuclear já tem sucessor. Para variar é a informação. Na política internacional, a dissuasão baseada na capacidade de destruir os outros (nuclear) está a ser substituída pela capacidade de evitar que os outros nos destruam (informação) (309).

 

Entidades públicas e organizações privadas têm vindo a constituir autênticas "war rooms": centros de captação de todo o tipo de dados e de informações que possam servir os seus interesses. Lá fora, oceanos de dados são gerados por todo o lado. O resultado é uma enorme zona cinzenta, insegura e ambígua. (305).

 

Quem está disponível para o quê? Quando e pagando que montante? A resposta a esta pergunta é, como calculam, um jackpot diário. Ao contrário do que o nome possa sugerir, as bases de dados não são nem maçudas, nem difíceis de utilizar. Quem sabe o que são bases de dados relacionais sabe como estamos perto da ilusão se tornar realidade (344).

 

O traço digital deixado por cada um de nós "oficialmente" não existe. São fragmentos de um puzzle gigantesco. Pretensamente impossível de montar. Mas meia dúzia de entidades podem reconstruir o filme todo em escassos minutos. Menos entidades ainda, com alguma imaginação e muita tecnologia, podem fazê-lo ainda mais depressa. É uma questão de dinheiro dizia o mágico Copperfield (84).

 

"Demasiada gente está a ver que ganhámos", queixava-se um militar de alta patente dos EUA (…) Os inimigos já não são os mesmos de sempre: Estados, nações, exércitos. Há por aí gente com outra forma de entender as coisas: "Os novos inimigos têm outro entendimento do mundo", "guerreiam doutra maneira". Alguns dos novos inimigos e das novas guerras estão em curso: terrorismo internacional, impérios criminosos globais, cartéis da droga, Estados párias (64).

 

Nunca na história dois países onde existissem McDonald's estiveram em guerra um contra o outro. Nos Mc-países as pessoas não gostam de combater em guerras; elas gostam de esperar em fila pelos hambúrgueres. Esta teoria alerta para o potencial de conflito em três zonas do globo: Síria, Líbano e Israel; Índia e Paquistão; e as duas Coreias (176).

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

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