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Fernando Medina fernando.medina@sapo.pt 10 de Julho de 2013 às 00:01

A crise das políticas

É verdade também que Paulo Portas tem agora a oportunidade da sua vida. Tendo acumulado um poder sem precedentes para alguém que não é primeiro-ministro, resta-lhe demonstrar que de facto merece o crédito.

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As razões que levaram a direita portuguesa à quase implosão têm pouco a ver com as personalidades ou idiossincrasias dos personagens. É verdade que com outros a coreografia teria sido diferente. Mas as razões de fundo estão noutro lugar: estão nas tensões resultantes do falhanço claro do Programa de Assistência e nas divergências quanto ao caminho a seguir para o futuro.


O debate divide com violência a sociedade portuguesa, os partidos políticos e atravessa naturalmente o Governo.

De um lado temos aqueles que acham que apesar das dificuldades o ajustamento económico está no essencial a correr bem e que os principais riscos para o futuro residem no "afrouxamento" do ritmo da austeridade. A forma como respondem aos desvios é clara: se o défice falha, deve reforçar-se a austeridade; se a dívida dispara deve "camuflar-se" o aumento com operações extraordinárias; se a recessão é mais funda, há que aguardar pela retoma europeia e apelar à União Bancária; se a contestação cresce há que ter "coragem política" e "responsabilidade"; se o desemprego atinge níveis socialmente insustentáveis... bom, aqui não há propriamente uma resposta, pois já arrumaram o fenómeno como sendo "estrutural".

Do outro lado estão aqueles que acham que o Programa de Assistência falhou e que é essencial alterar o curso da política económica. Que a prolongada recessão na Europa torna inviável pensar num crescimento puxado pela procura externa. Que a diferenciação das condições de financiamento dentro da zona euro não terá resolução rápida, e que se vier a ocorrer mais não fará que repor os elevados diferenciais competitivos existentes no pré-crise. Que o prosseguimento da austeridade na actual conjuntura é totalmente contrário à consolidação orçamental e à recuperação económica. Que o diferencial taxas de juro/crescimento do PIB (i.e., a dinâmica da dívida) é de tal forma elevado que não pode ser ignorado ou "camuflado". Que o prolongamento da recessão arrisca colocar o país numa situação de deflação da dívida. Que os riscos da degradação da situação social são elevadíssimos. Que o sistema político se aproxima a passos largos do seu limite, i.e., da sua capacidade em gerir a crise e de não ser consumido por ela.

A questão política central é pois a de saber se as alterações no Governo correspondem a uma alteração na orientação da política económica, ou se, pelo contrário, a continuidade vencerá.

Infelizmente temos todas as razões para acreditar que o essencial se manterá. Desde logo porque ficaram bem expressas as forças dos que defendem a continuidade: à cabeça a Comissão Europeia e alguns dos credores internacionais, parte relevante dos economistas afectos aos partidos da direita (que detêm significativa influência nas universidades, Banco de Portugal, instituições públicas nacionais e internacionais) e comentadores de serviço, a que se juntaram muitos ingénuos úteis que tremeram com medo que terminasse a ilusão de que Portugal regressará "aos mercados" e à normalidade em 2014. Por outro lado, a herança de Vítor Gaspar é particularmente pesada: foi o Governo que inscreveu os cortes adicionais de €4.000M na 5.ª avaliação (em Agosto de 2012), e que por lá os deixou quer na 6.ª, quer na 7.ª, reduzindo as margens para alterações agora.

Mas é verdade também que Paulo Portas tem agora a oportunidade da sua vida. Tendo acumulado um poder sem precedentes para alguém que não é primeiro-ministro, resta-lhe demonstrar que de facto merece o crédito que alguns lhe atribuem de ser um dos políticos mais talentosos da sua geração. É que o elogio é como as medalhas na guerra. Só verdadeiramente o merece quem combate com coragem na batalha, e não quem tudo faz para se esquivar ou proteger dela.

Economista. Deputado do PS

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