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Fernando Medina fernando.medina@sapo.pt 22 de Abril de 2014 às 20:50

Abril

A Europa pós-alargamento, pós-moeda única e pós-crise financeira não é hoje mais o referencial de modernidade, progresso e solidariedade que nos motivou e orientou no período pós-revolucionário e durante boa parte das décadas seguintes.

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Celebrar os 40 anos do 25 de Abril é certamente recordar os momentos que fizeram deste um dia único na vida do país. Um dia em que os protagonistas, as suas acções, as suas motivações e as suas histórias se transformaram em algo muito maior do que si próprios. Um daqueles momentos raros em que num ponto se concentraram as energias da transformação.

 

Celebrar o 25 de Abril será também certamente avaliar de forma crítica o que foram estes 40 anos, e de que forma as aspirações de liberdade e desenvolvimento estão ou não cumpridas. São inquestionáveis e unânimes os progressos no domínio da liberdade e da igualdade, em particular na igualdade de género e na mudança profundíssima do estatuto e papel da mulher na sociedade. São também inquestionáveis, embora por alguns menos valorizadas, as profundas melhorias nas condições de vida de vastos sectores da sociedade portuguesa, traduzidas em dimensões múltiplas, desde a esperança de vida, ao acesso à habitação, da cobertura de água e saneamento ao acesso a electrodomésticos essenciais, da protecção social ao acesso ao ensino superior. Estão também presentes as dúvidas de muitos sobre se a estrutura produtiva do país é hoje capaz de assegurar os crescimentos necessários à manutenção do edifício social que construímos, bem como a dúvida sobre a responsabilidade do sistema político nessas dificuldades.

 

Mas talvez a melhor forma de celebrar e honrar o 25 de Abril seja prosseguir o esforço de responder à questão que há 40 anos uniu a generalidade dos portugueses: como podemos, hoje, responder às aspirações de justiça, progresso e desenvolvimento para todos? Nos dias que correm, sob o manto de um Governo da Troika e de uma doutrina de empobrecimento, a simples formulação da pergunta tende a ser vista com estranheza e desconfiança. Mas é precisamente aqui que a resposta se inicia: sim, 40 anos depois, faz sentido a ambição de justiça, progresso e desenvolvimento para todos.

 

E responder hoje à pergunta implica reconhecer, com tristeza, mas também com frieza, que o principal eixo polarizador das mais profundas e diversas mudanças que vivemos nos últimos 40 anos já não cumpre nem cumprirá o mesmo papel: a Europa.

 

A Europa pós-alargamento, pós-moeda única e pós-crise financeira não é hoje mais o referencial de modernidade, progresso e solidariedade que nos motivou e orientou no período pós-revolucionário e durante boa parte das décadas seguintes. Pelo contrário, a Europa que vemos surgir perante nós - com um Banco Central que é credor de último recurso de todos excepto dos estados soberanos e democráticos, com a imposição de austeridade permanente na periferia ou com os novos limites à livre circulação de pessoas - não é hoje fonte de progresso e desenvolvimento. Mais ainda, uma Europa que se conforma com a condenação ao desemprego permanente de parte importante dos seus povos verdadeiramente já não é, porque não pode ser, referencial de nada.

 

Mas o pior, é que o estado da Europa não resulta do domínio temporário de uma qualquer variante ideológica, afastável em eleições. Ela corresponde a uma fractura profunda e em alargamento entre os estados do Norte e estados do Sul, ou noutra formulação, entre estados credores e estados devedores, em que os primeiros têm sucessivamente demonstrado não ir abdicar das vantagens que a situação actual lhes trouxe.

 

Isto significa que a visão simples (no caso de muitos, simplista) com que o interesse nacional foi formulado durante largo tempo no nosso país "o que é bom para a integração europeia é bom para Portugal", não faz hoje (se é que alguma vez fez) qualquer sentido e necessita ser substituída por uma nova visão. Uma que alargue os horizontes de enquadramento do nosso país e que ao mesmo tempo construa na Europa as novas alianças de que necessitamos. No fundo, uma visão capaz de orientar a acção, nos múltiplos momentos que os próximos anos e décadas seguramente trarão na recomposição da União Europeia que hoje conhecemos.

 

Economista

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