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Fernando Medina fernando.medina@sapo.pt 18 de Junho de 2014 às 00:01

Uma questão de diagnóstico

É nos momentos críticos, como aquele que atravessamos, que a qualidade do diagnóstico é mais determinante.

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"Uma das causas mais comuns de todas as doenças é o diagnóstico"

 

Karl Kraus

 

O descontentamento de parte importante dos europeus face à situação económica e social traduziu-se, nas eleições do passado dia 25 de maio, num forte voto de protesto. Nalguns casos este voto premiou mesmo soluções políticas extremistas. E em Portugal, se é verdade que o voto de protesto felizmente não se canalizou para soluções dessa natureza ideológica, não é menos certo notar que, pela primeira vez desde 1985, PS, PSD e CDS somados não atingiram os 60 por cento. Ao contrário do que muitos supunham, o nosso sistema político mostra evidentes sinais de fraqueza e fragmentação que importa reverter.

 

Na análise desta realidade é essencial não confundir as causas das coisas com as suas consequências. Da mesma forma que não devemos confundir as causas da crise económica (condições de competitividade no seio da zona euro) com as consequências (crise nas finanças públicas), também não devemos confundir causas e consequências quando olhamos para a crise de confiança nas instituições democráticas portuguesas.

 

Ninguém ignora que o sistema político português precisa de mudanças e de melhorar a sua relação com os cidadãos. Essa será sempre uma necessidade de todos os regimes democráticos, e em particular de todas as democracias consolidadas, e é-o especificamente no caso de Portugal. Mas não nos iludamos: não devemos pedir à reforma do sistema político aquilo que ela não nos pode dar. No essencial, a crise das instituições democráticas que vivemos não é a causa, mas a consequência dos bloqueios económicos e sociais que ainda não conseguimos ultrapassar.

 

O contexto da inserção internacional da economia portuguesa alterou-se profundamente nas últimas duas décadas, fruto do alargamento europeu a Leste, da intensificação das inovações tecnológicas, da abertura dos mercados europeus às economias emergentes e da adesão de Portugal à moeda única. A combinação simultânea destes choques numa economia periférica com importantes défices nos modernos fatores de competitividade reduziu os ritmos de convergência e gerou uma situação de difícil resposta na esfera nacional. Este quadro foi ainda agravado pela resposta europeia à crise financeira, que não só se mostrou incapaz de resolver a situação como acentuou as divergências dentro da União Europeia.

 

Só com uma nova agenda reformista orientada para dar resposta a estes desafios - de inserção internacional da economia portuguesa e de superação de bloqueios internos ao desenvolvimento (com destaque central para a qualificação dos portugueses) - conseguiremos melhorar significativamente a relação dos portugueses com as instituições democráticas. Não se melhora a satisfação com a democracia com menos deputados e menos pluralismo. Não se combate o populismo com cedências ao discurso antissistema. Melhora-se a democracia com mais resultados.

 

É nos momentos críticos, como aquele que atravessamos, que a qualidade do diagnóstico é mais determinante. Porque sem um bom diagnóstico vamos falhar nas soluções. E porque nestes momentos o erro tem um custo demasiado alto para todos.

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo acordo ortográfico

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