Fernando  Sobral
Fernando Sobral 07 de junho de 2018 às 22:26

A Europa entre os EUA e o seu destino

Pode não parecer, mas a União Europeia enfrenta neste momento desafios suficientes que a podem afectar para sempre. Da guerra comercial com os EUA à crise italiana, Bruxelas tem muito com que se coçar.

Isto para já não falar no euro, alvo preferencial de Washington, mas que a UE tem vindo a destruir. Sem reformas sérias, o euro não funciona. Portugal sentiu, e sente, os efeitos disso, através da austeridade a que tem sido submetido. Com o excesso de privatizações e os cortes salariais (as célebres "reformas") criou países ainda mais pobres e permeáveis ao discurso populista. Afinal a chegada maciça de imigrantes de África ainda tornou mais viável o trabalho mais barato. Há uma semana, num artigo muito sólido, George Soros escrevia: "A desintegração da Europa não é já uma figura retórica: é uma dura realidade." E elencava as ameaças externas: os EUA de Trump, a Rússia de Putin, a Turquia de Erdogan, a Síria e a Líbia. E internas: a Polónia e a Hungria, a que agora se aliava a Itália. Para Soros, a UE tem poucas hipóteses de evitar a desintegração, a menos que a aliança franco-alemã se mantenha firme. Para já, a ameaça mais visível é a Itália: a aliança da Liga com o 5 Estrelas criou um governo cujo OE vai por certo exceder os limites impostos pela UE em termos de gastos. Da resposta de Bruxelas (diplomática ou à bruta) dependerá muita coisa.

 

Mas se é visível a debilidade política, económica e militar da Europa (basta ver como as empresas europeias estão aterrorizadas por causa das sanções americanas ao Irão), há outras ameaças latentes. A maior vem dos EUA, que depois de, no pós-guerra, terem apoiado a integração europeia para fazer face à então URSS, hoje têm pouco interesse numa Europa unida e numa moeda que possa desafiar o dólar. Repare-se num pequeno pormenor: Steve Bannon, durante muito tempo descrito como o "guru" de Trump, e o expoente dos ideais populistas de extrema-direita nos EUA, tem feito nos últimos meses uma digressão europeia, cativando audiências em França, mas também em Praga e Budapeste. No centro do seu discurso está a divisão do mundo a branco e preto: nacionalistas contra globalistas. Em Itália, Bannon já se referiu ao novo governo como uma "aliança histórica". Mesmo afastado de Trump, ambos têm um alvo: a hostilidade à UE. E a guerra comercial existente neste momento tem que ver com tudo isto. Washington deseja que o euro se desintegre e que a lógica social-democrata (mesmo se esta, economicamente, é cada vez mais liberal), que ainda preside como ideologia reinante na UE, se afunde. Para Washington, será mais fácil lidar com uma Europa de países independentes, sem um centro.

 

São todos estes desafios que a Europa burocrática de Bruxelas tem de defrontar. Algo que não cabe na sua visão estreita de questões como a austeridade, as "reformas", a emigração ou a defesa. Bannon, como Trump, encara a Europa como um parceiro útil, mas menor, na sua lógica global de superpotência (defronte da China). Para isso terá de ser domada. E isolada de uma "aliança" com a Rússia (como se prova a pressão para que o gasoduto entre esta e a Europa não funcione e seja substituído por importações de gás dos EUA). Resta saber, com os desafios internos, como se comportará Bruxelas. E, sobretudo, Berlim.

A sua opinião1
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
comentar
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentários mais recentes
Anónimo Há 1 semana

Aposto q este jornalista de esquerda paga 20euros / hora a empregada romena ou turca que lhe vai lá limpar a casa.

pub