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A Europa testa os seus limites

O sucesso de Le Pen e Mélenchon em França não é estranho: é o reflexo de sociedades onde se tem destruído o factor de estabilidade, a classe média, em nome da necessidade de austeridade cega.

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Os apoiantes do candidato da extrema-esquerda francesa, Jean-Luc Mélenchon, lançaram um jogo de vídeo online chamado "Fiscal Kombat" (inspirado no clássico "Mortal Kombat") em que o jogador toma controlo do candidato enquanto ele luta contra um político ou um capitalista. Permite mesmo que o Mélenchon-herói agarre os opositores pelo pescoço até que o dinheiro lhes caia dos bolsos. O jogo tem sido um sucesso e talvez ajude a perceber como, nas vésperas da primeira volta das cruciais eleições francesas, Mélenchon disputa a passagem à segunda volta contra os favoritos, Marine Le Pen e Emmanuel Macron, e o candidato da direita clássica, François Fillon. 


A sociedade francesa polarizou-se e radicalizou-se. E esta eleição, onde se discute sobretudo identidade e segurança, acontece no momento em que Theresa May, do outro lado da Mancha, faz a sua jogada de mestre para enfrentar a União Europeia e destroçar a oposição (trabalhista e interna, dentro dos próprios conservadores). Vencendo confortavelmente, como se julga, May evitará que as previstas eleições de 2020 conduzissem a uma incerteza sobre a negociação do Brexit.

Nesse aspecto a UE está mais frágil: não consegue reforçar-se politicamente de uma forma tão clara. As próximas eleições em França, na Alemanha e na Itália ilustram a sua debilidade. May poderá vir a chegar à mesa das negociações com uma maioria forte por trás dela e com uma economia forte, jogando com a libra esterlina. May pode apresentar-se com uma única voz face a uma UE que é a soma atomizada de interesses contraditórios, com uma mulher do leme que só pensa na sua própria grandeza e não na de todos.

 

A Europa está fracturada e volta a dividir-se ao meio, como aconteceu há um século. O sucesso de Le Pen e Mélenchon em França não é estranho: é o reflexo de sociedades onde se tem destruído o factor de estabilidade, a classe média, em nome da necessidade de austeridade cega. Une-os uma crença: o valor do trabalho deixou de existir e grande parte dos cidadãos olha, revoltada, contra uma elite de privilégios. Se juntarmos a isso a questão da segurança e da identidade, vemos como, mais à direita ou mais à esquerda, o caldo cultural para a radicalização está composto.

Com um Fillon sem grande força, resta à elite e aos sectores menos radicalizados apostarem todas as fichas em Macron, o candidato que diz que é como De Gaulle: não é de direita, nem de esquerda, nem sequer do centro. É uma mistura de tudo isso. Ou seja, ele é o reflexo cosmopolita desse universo não ideológico em que só contam os resultados. Pode ser tudo e não ser nada. Mas é isso que leva a que seja confiável pelos sectores que mais têm a perder em caso de radicalização.

 

Afinal Le Pen pede a saída da União Europeia e do euro e, se ganhar, o futuro deste sonho assente agora no eixo franco-alemão desintegrar-se-ia. O que é curioso é que três dos candidatos em França (Macron, Le Pen e Mélenchon) falam da necessidade de uma "revolução". Não uma nova Revolução Francesa, como a de 1789, mas à medida dos nossos dias. Sobre isso Macron é o menos convincente, mas seja qual for o resultado, dificilmente França voltará a ser a mesma. 

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