Fernando  Sobral
Fernando Sobral 19 de julho de 2018 às 19:17

A longa marcha de Donald Trump

Trump não se vê como presidente político dos EUA: olha-se como o CEO da EUA Tower. Por isso toda a sua confusa estratégia tem a ver com a instabilidade e com a disseminação do caos.

Já se percebeu quem vai ser a principal vítima na guerra comercial global alimentada por Donald Trump: o consumidor. A começar pelos americanos. Nada que incomode o presidente. No meio desta batalha campal há sempre momentos divertidos: neste momento já estão a ser produzidas na província de Anhui, na China, as bandeiras e cartazes com as palavras "Trump 2020". Presumivelmente quem encomendou estes motivos de propaganda, já a pensar nas próximas presidenciais, reparou primeiro nos preços. E decidiu por, apesar de defender o "American First", procurar quem fazia mais barato. 


É assim que nasce o "American Second". Mas esta aparente contradição, num homem que faz da diplomacia global da maior superpotência da Terra uma sucursal dos "negócios" e do "comércio", é quase insignificante com todo o resto. Trump não se vê como presidente político dos EUA: olha-se como o CEO da EUA Tower. Por isso toda a sua confusa estratégia tem a ver com a instabilidade e com a disseminação do caos: todos contra todos e com os EUA (e ele próprio) a observarem e a ganharem com a confusão. Por isso Trump diz, num dia, que a Europa é "o inimigo" e faz de Angela Merkel o bombo da festa (porque a UE e a Alemanha são concorrentes comerciais e, pior, defendem alguma ética nos negócios). Por isso, também, ameaça destruir a NATO e diz que a entrada do pequeno Montenegro na aliança atlântica pode despoletar uma terceira guerra mundial. Por essa razão também diz da Rússia uma coisa num dia e outra completamente diferente no outro. Tal como humilha Theresa May numa manhã e a glorifica no dia seguinte.

Não há uma linha unificadora no pensamento de Trump. Mas é isso mesmo que ele deseja. No fundo segue as ideias de um dos principais inspiradores de Vladimir Putin, Vladislav Surkov, o autor da tese da "guerra não-linear", de um mundo onde os aliados mudam rapidamente e as coligações não são eternas. Trump é isso. E é com este presidente que a União Europeia, que viveu demasiado tempo debaixo do poder militar e tecnológico americano (começou tarde a pensar numa estratégia militar comum e num sistema alternativo ao GPS), tem de lidar.

 

A guerra comercial que Trump deseja não levará a lado nenhum. Será preciso calma e cerco aos EUA. Como a UE fez agora com o Japão, no maior acordo de livre-comércio de que há memória. E como poderá fazer com outros blocos, como o sul-americano. O acordo com o Japão é simbólico, mas vem preencher um vazio criado por Trump, que considera os velhos aliados dos EUA como vassalos. E é isso que está a afastar muitos deles para a órbita da China. Trump representa uma nova fórmula do movimento nacionalista internacional que pensa sobretudo com o sucesso da sua própria tribo. Para eles a cooperação internacional não é uma coisa natural. Trump é a sua bandeira, um líder informal de uma opção ideológica. Trump já mudou a forma de fazer política. Agora está a alterar a lógica de fronteiras, de migrações e de comércio. A guerra comercial dos EUA poderá, no entanto, ter consequências graves a curto prazo: um novo equilíbrio em que o PIB global é menor, a procura desce, o desemprego aumenta (a menos que os salários ainda desçam mais). Mas isso pode implicar um desconforto social que coloque em causa os equilíbrios das democracias. Nunca se sabe se não é isso que quem está por detrás de Trump efectivamente deseja.

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