Fernando  Sobral
Fernando Sobral 23 de abril de 2018 às 21:12

A superioridade moral

Quando se deixa de confiar nos sacerdotes da democracia, o que sobra das instituições? A sua superioridade moral, a confiança, torna-os suspeitos aos olhos dos cidadãos.

No berço da democracia, a antiga Grécia, os templos não eram só locais sagrados. Nesses sítios, desenvolviam-se todo o tipo de serviços. A ilha de Delfos era não apenas um santuário: era um local de intenso comércio, um dos mais importantes de todo o Mediterrâneo. Delfos oferecia protecção. E isso, numa época de intensas conquistas militares, era uma fortaleza sem o ser. Não precisava de tropas para se defender: tinha a superioridade moral. Isso inspira-nos numa era em que o Estado está em falência ética e moral e, na sociedade civil, é difícil encontrar poços de virtude. A própria Europa, fonte do Iluminismo e farol da democracia, já pouco inspira o mundo. Mas os políticos tornaram-se um alvo por culpa própria. E agora estão a pagar os juros dos seus pecados capitais. Não surpreende por isso o tiro ao alvo em que transformou nos últimos dias a ideia de repor os 5% cortados nos últimos anos ao pessoal dos gabinetes políticos. Ou das "duplas ajudas" a deputados das ilhas. No fundo o argumento, mesmo sendo casos diferentes, é o mesmo: os políticos conseguem rapar sempre o fundo do tacho.

 

Quando se deixa de confiar nos sacerdotes da democracia, o que sobra das instituições? A sua superioridade moral, a confiança, torna-os suspeitos aos olhos dos cidadãos. Mas esta arrepiante e fácil justiça popular (hoje um hábito na nossa sociedade) esquece um pormenor: se olharmos com realismo para os salários da classe política nacional (e não apenas para os seus dividendos sem impostos), ficamos estarrecidos. Como se quer que alguém com competência acima da média vá para uma carreira pública? É por isso que cada vez mais a política se tornou um palco de carreiristas. Isto sucede porque os próprios políticos não sabem defender-se: olhe-se para a forma caricata como Ferro Rodrigues veio defender as "duplas ajudas". Sendo a segunda figura do Estado, deveria ter ficado calado. O debate é outro. Mas esse ninguém o quer travar. Porque é impopular. 

 

Grande repórter

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