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A crise e o fim do diálogo

Esta crise está a fazer abrir uma Caixa de Pandora: são cada vez mais as vozes que pedem, com insistência, o primado das decisões sem diálogo. Tudo em nome de valores económicos que julgam hegemónicos. Está a destruir-se a ideia de Europa nascida da II Guerra Mundial.

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Quando a Goldman Sachs produziu um relatório sobre o Mundial de Futebol da África do Sul, onde a componente económica era bastante relevante, chegou à conclusão que os semi-finalistas seriam, quase de certeza, a Inglaterra, o Brasil, a Espanha e a Alemanha.

O erro foi de 50%. Não deixa de ser curioso que essas previsões foram demolidas pelas de um simples polvo de nome Paul, que vive num aquário e que acertou sempre os resultados e, até, o vencedor da competição. Ou seja, por si só a economia e as finanças não explicam tudo. Ninguém já hoje duvida, seja em sectores que pareciam imunes ao fenómeno (a política ou a cultura) que a economia é importante e, por vezes, determinante nas opções. Mas ela, por si só, não é hegemónica em termos das grandes decisões.

Voltando ao futebol, como é que uma equipa dos fabulosos PIGS, a Espanha, venceria um Mundial, se outras variáveis não influíssem nos resultados finais? Num mundo de crise é compreensível que se queira ver tudo à luz dos holofotes financeiros e económicos. É um discurso que começa a ser demasiado audível, como se tem visto numa série de análises a nível internacional (o mais paradigmático é o do responsável das finanças britânicas, George Osborne) e nacional (vejam-se as recentes declarações de pessoas como Ernâni Lopes ou Luís Campos e Cunha).

Nele começa a vislumbrar-se que é necessário tomar decisões económicas e financeiras sem diálogo. Como se essas decisões não tivessem de ter em conta a sociedade, as suas emoções, os seus sonhos e realidades. É um discurso profundamente perigoso, que nos atira para o universo dos homens iluminados. Ontem na política, hoje na economia. Uma nova versão de "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley começa a cirandar por aqui.

O desprezo pelo diálogo, como base do sistema democrático numa sociedade de consumo, começa a ser uma evidência. A evolução da UE, baseada nas arquitecturas que começam a ser desenhadas pela Alemanha e pela França, também privilegia as decisões sem diálogo, como se vê com o que se pretende na área orçamental dos países membros e no controle dos défices orçamentais. Só que ao iludir-se o diálogo está-se a demolir o sistema político no qual assenta a Europa do pós-II Guerra Mundial.

O que espanta neste novo maniqueísmo instalado é que ninguém parece recordar como os paradigmas económicos mudam rapidamente: há um par de anos a grande preocupação do BCE era a inflação e o preço do petróleo. Tudo mudou muito rapidamente. Há claramente outro princípio errado em todos estes cortes radicais (por exemplo de salários) que se propagandeiam como se fossem elixires de eterna juventude. Cortes brutais nos salários vão cortar o sonho de felicidade das pessoas e das empresas: elas recebem menos, gastam menos, levam as empresas a produzir menos e a dispensar mais pessoas. Num ciclo temível onde pagar menos impostos ao Estado será o epílogo.

Toda esta crise está curiosamente a criar duas novas referências de pensamento. A esquerda começa agora a ser mais eurocéptica do que a direita, tradicionalmente mais desconfiada do federalismo. Por outro, assiste-se ao fascínio por uma nova forma de capitalismo que pouco tem a ver com certas coisas que por aí se escutam na Europa: é um capitalismo moldado à volta do Estado, claramente influenciado pelo modelo de Singapura e que tem adaptações muito curiosas em países díspares como a China ou o Brasil.

No fundo, tem de se entender que a economia tem que ver com seres humanos, onde é preciso encontrar balanços. Especialmente numa Europa que ainda procura a sua herança no Iluminismo e na busca de um mundo melhor.

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