Fernando  Sobral
Fernando Sobral 26 de junho de 2013 às 23:30

A profecia da reforma do Estado

Escritas no século XVI, as "Trovas" de Gonçalo Annes Bandarra foram interpretadas mais tarde como uma profecia: que D. Sebastião regressaria um dia. Os portugueses continuam à espera desse momento, tal como anseiam nervosamente pelo documento que Paulo Portas prometeu com a "reforma" do Estado e que lá para 15 de Julho a famigerada troika deveria aprovar.

A reforma de Paulo Portas é o novo Encoberto. Deverá surgir numa manhã de nevoeiro quando ninguém a esperar. Ninguém espera, é certo, muito dela. Porque o Estado foi, seja na monarquia constitucional ou na república, o colo que aconchega as elites políticas e económicas que se sucedem no poder. Não se acredita que, num país onde os partidos políticos encaram o Estado como uma propriedade privada e há demasiados grupos influentes que comem à sua mesa, se reforme com seriedade o monstro. Para isso teria de haver um largo consenso da sociedade e isso é coisa que Pedro Passos Coelho se mostra incapaz de conseguir.

 

De um pacto de regime já conseguiu afugentar o PS, a UGT e as confederações empresariais. O consenso de Passos é um monólogo com um único ouvinte: ele próprio. O corte dos célebres 4700 milhões nunca será consensual, até porque continua a faltar um estudo que o sustente com realismo. Ou seja, chegámos à alucinação dos cogumelos mágicos: nem ninguém sabe que reforma do Estado se vai fazer nem ninguém imagina onde se vai cortar 4700 milhões.

 

Em "Alice no País das Maravilhas" quando se comiam cogumelos os personagens aumentavam de tamanho. Não se acredita que o encoberto documento de Portas funcione como o cogumelo da diminuição de tamanho. A menos que tudo seja uma questão de profecias.

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