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As viagens de balão

Viajar à borla tornou-se um desporto nacional. Tal como ir ver concertos sem despender um cêntimo (e aqui atire pedras quem nunca pecou). O problema é quando algumas viagens trazem cicuta nos bilhetes de avião e de jogos de futebol.

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Há um século, ou dois, as aspirações dos seres humanos eram mais modestas. Viajar de balão era uma delas. Júlio Verne percebeu isso e ofereceu-nos o delirante "Cinco Semanas num Balão", onde o doutor Ferguson e os seus amigos desejam fazer a travessia do continente africano. Esta aventura faz-nos esquecer que a história das viagens de balão tem sempre o mesmo fim: a queda do aparelho na terra. Tal como a política ou a vida. O balão foi derrotado, em velocidade, pelo comboio ou pelo avião. E passou a ser apenas um meio de transporte romântico. Mas isso não fez decrescer o desejo de viajar. Uns querem conhecer Las Vegas. Outros ir ver um concerto de Lady Gaga. Alguns, mais modestos, querem apenas ir a uma feira comer torresmos ou entrecosto. Só os eleitores mais fervorosos de Donald Trump não desejam conhecer mais nada para lá das fronteiras do seu estado no meio dos EUA. Até têm medo de sair de lá. Na idade do turismo "low-cost", viajar tornou-se tão habitual como ir ao supermercado comprar comida pronta a aquecer e consumir. Mas todas as viagens podem ter um lado negro: e a administração pública portuguesa está a descobri-lo.

 

Viajar à borla tornou-se um desporto nacional. Tal como ir ver concertos sem despender um cêntimo (e aqui atire pedras quem nunca pecou). O problema é quando algumas viagens trazem cicuta nos bilhetes de avião e de jogos de futebol. Um grupo de secretários de Estado já lhe provou o gosto depois de ir celebrar os dribles da selecção a França. Agora começou a noite das facas longas: vários altos quadros do Ministério da Saúde foram até à China e outros até aos EUA. Se se escarafunchar um pouco não faltarão outras viagens de mais umas dezenas de quadros, de diferentes ministérios ou serviços públicos, aos mais diferentes locais do planeta. A destruição do Estado continuará assim em marcha, porque se saltou a fronteira do político para o não-político. Isso não invalida a falta de transparência. Estas viagens de balão vão sair bem caras à estrutura central do Estado. E a todos nós.

 

Grande repórter

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