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Atocha

Há alguns anos um dos mais estimulantes grupos de flamenco, os Ketama, cantavam um tema lindíssimo, “Vente pa Madrid”. Era uma carta, em forma de canção, ao seu primo António, a convidá-lo a vir ter com eles à capital de Espanha, o centro do mundo.

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Há alguns anos um dos mais estimulantes grupos de flamenco, os Ketama, cantavam um tema lindíssimo, “Vente pa Madrid”. Era uma carta, em forma de canção, ao seu primo António, a convidá-lo a vir ter com eles à capital de Espanha, o centro do mundo.

Algo que percebíamos na altura, ainda na ressaca da “Movida” de inícios da década de 80 que colocou a capital espanhola como destino da nova cultura popular. Era o tempo de Almodóvar, dos Rádio Futura ou Gabinete Caligari ou de Ouka Lele.

Madrid, liberta da ditadura, abria as portas às novas ideias que vinham de todos os cantos de Espanha e que desaguavam, muitas vezes, na velha estação de Atocha, onde ainda chegavam os velhos comboios da Renfe. O destino, claro, eram as Puertas del Sol, de onde se tentava ver o futuro.

Os Ketama, frutomais saboroso do flamenco, sentiam a tensão desses dias. Ainda mais porque o flamenco sempre foi a banda sonora do sangue que se derramava nas arenas, a ferida que nunca cicatrizou da dança e da dor. O flamenco é a alquimia da tragédia de Espanha, como se escutava na canção dos Ketama.

Talvez nunca se saiba se o primo António desceu, um dia, de um comboio em Atocha.

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