Fernando  Sobral
Fernando Sobral 16 de janeiro de 2012 às 23:30

Charlot e a S&P

O grande vencedor dos Globos de Ouro deste ano, "The Artist", é um filme mudo e a preto-e-branco. É uma metáfora sobre o novo tempo em que vivemos.
O grande vencedor dos Globos de Ouro deste ano, "The Artist", é um filme mudo e a preto-e-branco. É uma metáfora sobre o novo tempo em que vivemos. A sociedade ocidental deixou de viver a cores e começa a ser incapaz de pensar e de falar. Charlot volta a ser o nosso herói. Lembremos "Tempos Modernos", uma crítica demolidora à sociedade da Grande Depressão. Voltamos a ser como Chaplin: vagabundos sem destino.

A Standard & Poor's quer impor esse destino a todos nós. Olhe-se para a sua última expulsão de conteúdo gástrico a propósito da zona euro. Para a S&P a Europa é um minúsculo hamster que deve correr numa roda até morrer de exaustão. Dá uma opção à Europa: querem morrer pela espada ou pela cicuta? Se os europeus apostam na austeridade, a S&P diz que não há hipóteses de a economia crescer e por isso baixa o "rating". Se apostam no investimento (até para combater o desemprego galopante), a S&P diz que assim não há estratégia para combater o défice.

As agências de "rating" candidataram-se a cangalheiros do euro e têm tido uma boa ajuda da UE. Por isso a vida sorri-lhes. Tudo é visível como num filme mudo: as agências como a S&P são os bombeiros do dólar. E os cavaleiros do apocalipse, porque há quem aposte na catástrofe para ganhar dinheiro. Tudo o resto é uma comédia sem arte. O drama é que se joga com a vida de milhões de pessoas. A Grécia está à beira do abismo. E pode-se adivinhar que, a seguir, os cangalheiros se virarão para Portugal. Sabe-se hoje que a Europa nunca voltará a ser o símbolo do "glamour". Mas escusavam de nos colocar mudos e a preto-e-branco. Como Charlot.

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