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Donald Trump e a guerra à Europa

Com Trump não há mais máscaras: muitas das opções políticas e comerciais da sua administração fustigam a União Europeia.

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O general Charles De Gaulle sempre foi detestado pelos americanos, mesmo durante a II Guerra Mundial, que tudo fizeram para minar a sua autoridade. De Gaulle não esqueceu. Em 1965 fez um discurso bastante violento contra a preponderância do dólar no sistema monetário internacional. E tentou afastar-se da NATO. Talvez também por isso, anos mais tarde, Richard Nixon desconectou o dólar do padrão-ouro, causando a fúria francesa, que na altura era a maior detentora de dólares fora dos EUA. Washington fez os possíveis por unificar a Europa durante a Guerra Fria mas, desde então, a sua estratégia europeia sempre foi ambivalente.

 

Com Trump não há mais máscaras: muitas das opções políticas e comerciais da sua administração fustigam a União Europeia. Das tentativas de atiçar países do leste contra Bruxelas até à ameaça de aumentos de tarifas alfandegárias há de tudo um pouco. Agora Trump ignorou olimpicamente as opiniões europeias sobre o acordo nuclear com o Irão e avançou para sanções que, na prática, querem isolar totalmente Teerão e poderão conduzir a uma guerra. Mas, com isso, mais uma vez, o alvo é a Europa. As sanções financeiras de Washington colocam sobretudo em causa grandes empresas da União Europeia que já estavam a investir ou a fazer negócios no Irão. Para não sofrerem no mercado norte-americano, terão muito provavelmente de sair do Irão, com graves prejuízos. Bruxelas pode optar por um desafio às pretensões de Trump, mas falta-lhe força política, económica e militar. E Trump sabe isso. O secretário do tesouro americano, Steve Mnuchin, foi claro: "A Europa terá de cumprir as sanções ao Irão".

 

As empresas europeias perceberam o aviso. A britânica BP paralisou o seu acordo com a Iranian Oil Company no mar do Norte. Não é de admirar. Os britânicos, como sempre, são os testas-de-ferro dos EUA na Europa. Quando o Reino Unido decidiu não aderir ao euro, mantendo a libra, terminou o sonho da Europa de tornar o euro uma moeda de referência do petróleo. Veremos agora o que farão as grandes empresas europeias, que terão de coordenar as suas actividades com Bruxelas. Enquanto decorre esta guerra entre Washington e Bruxelas, Teerão já admite começar a fazer todo o seu comércio em euros e yuans (a moeda chinesa - recorde-se que a China é o maior parceiro comercial do Irão). A questão agora é se a Alemanha e a França terão capacidade para ter uma política autónoma face aos EUA, o que não se afigura fácil. Mas, confrontada com problemas internos (a Itália vai ser o próximo), a União Europeia vai ter de, por uma vez, começar a pensar em qual vai ser o seu lugar num mundo onde EUA, China e Rússia vão estabelecendo fortes zonas de influência política, comercial e militar. Sem força militar própria, a UE não vai longe. E isso reflecte-se, depois, na sua capacidade para ter uma voz autónoma de Washington. Que, com Trump, trata Bruxelas como uma criada servil dos interesses dos EUA. Resta saber se a Europa quer continuar a ser uma empregada doméstica dos norte-americanos.

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