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Fernando Sobral - Jornalista fsobral@negocios.pt 25 de Janeiro de 2018 às 19:14

Em que mundo queremos viver?

Ursula K. Le Guin, a grande escritora de ficção científica (que morreu há poucos dias), era fascinada pelas cinzas do capitalismo industrial. E propunha, de alguma maneira, o regresso às leis da natureza.

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Como referia Margaret Atwood, o que a movia era uma simples questão: em que mundo queremos viver?

 

Tema que, de certa maneira, nos atira para o que se discute nestes dias em Davos: o futuro da globalização face às nuvens do proteccionismo, o lugar do nacionalismo no meio da gritaria do populismo, o destino do trabalho neste contexto virtual e robotizado. Le Guin, num dos seus livros mais marcantes ("The Left Hand of Darkness") apresentava-nos um planeta, Gethen, que estava dividido em duas sociedades. Numa delas, o rei está louco, e os cabalistas e os poderes pessoais abunda.

 

Num dia está no círculo do poder, no outro estás fora. Na outra sociedade a burocracia opressiva governa tudo e todos e um comité secreto sabe o que é melhor para os cidadãos. Se alguém for um perigo, será exilado ou isolado. Sem hipóteses de contrapor factos.

 

Walter Benjamin disse uma vez que o que levava os homens e mulheres à revolta não eram os sonhos dos netos, mas sim as memórias de antepassados oprimidos. Talvez fosse isso, que tem a ver com a morte do "capitalismo insustrial" na Manchester da década de 1970, que marcou a música de Mark E. Smith, o líder do grupo The Fall, que desapareceu também por estes dias.

 

Mais do que a sua alucinação pós-punk e pós-industrial, sempre fiquei muito mais marcado por outro grupo de Manchester, os Joy Division, que mostrou que a música podia ser muito mais do que puro entretenimento: permite-nos ler as zonas mais negras e subterrâneas das emoções humanas. De alguma maneira o som dos The Fall, construído numa cidade industrial em ruínas onde os mais novos não sabiam o que fazer, era uma espécie de ficção científica.

 

E não deixa de ser curioso como a obra de Ursula K. Le Guin e de Mark Smith nos fazem olhar de outra forma para o que se discute em Davos. Mesmo se os que ali estão presentes estão reféns do que pode dizer Donald Trump para mostrar que o proteccionismo pode ser bom para a globalização (a ideologia que move Davos).

 

Estamos claramente no limiar de um novo mundo e de uma nova forma de perceber melhor a relação dos cidadãos, da democracia e do valor do trabalho com a Inteligência Artificial, as elites que se criaram e a acumulação de "data".

 

É um mundo que abre novos desafios e que abrem o caminho à revolta nacionalista (e populista), porque os deserdados de hoje olham para o que tinham apenas há alguns anos e descobrem que não têm rede de segurança para si e para os seus. E compreendem a implantação de uma sociedade "low cost", onde há apenas limiares mínimos de sobrevivência garantida. Que mundo vamos ter. E, melhor, em que mundo queremos viver?

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