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Fernando Sobral - Jornalista fsobral@negocios.pt 01 de Fevereiro de 2008 às 13:59

Gato no sofá (01/02/2008)

O que é que lucra um homem chegar ao pico de uma montanha se, depois, não consegue descer? O recentemente falecido Sir Edmund Hillary, sobre o assunto, dizia eloquentemente: “Eu, pessoalmente, inclino-me a pensar que é bastante importante o poder descer d

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A remodelação camaleónica

O que é que lucra um homem chegar ao pico de uma montanha se, depois, não consegue descer? O recentemente falecido Sir Edmund Hillary, sobre o assunto, dizia eloquentemente: “Eu, pessoalmente, inclino-me a pensar que é bastante importante o poder descer do cimo”. Subir ao pico (do poder, da arrogância, do dever cumprido) pode ter sido o sonho de José Sócrates quando foi eleito. Saber descer à realidade parece ser, neste momento, o seu choque frontal com o clamor da sociedade. Quando remove Correia de Campos ou Isabel Pires de Lima do Governo, Sócrates pratica um novo princípio político: a doutrina camaleónica. É a “terceira via” do Governo que descobriu que tem de governar para a “rua” e não para os gabinetes de técnicos (por muito que isso custe ao ideólogo Vital Moreira). Correia de Campos estava a impor a sua doutrina, mas nunca o faria se não tivesse o aval de Sócrates. Isabel Pires de Lima tinha instituído o imobilismo como política cultural, para pena de quem ainda sonha com o D. Sebastião, vulgo Manuel Maria Carrilho. Sócrates, ao mudar de ministro da Saúde, tem de mudar de política. Não se atira um ministro para o fuzilamento sumário se, das duas uma: ou se está a resguardar a ele próprio, imolando o cordeiro para salvar a própria pele, ou quer calar a maioria silenciosa do próprio PS, para ela não cair na tentação de seguir Alegre ou Seguro num futuro próximo. Quanto à Cultura, a história é outra: Sócrates vai buscar um gestor inteligente, que pode agradar para já à esquerda festiva, mas que sabe o rigor das contas e o valor de dividir o cheque pelos privados. Viu-se o discurso: “fazer mais com menos”. Sócrates chegou ao pico, refugiou-se demasiado tempo numa reclusão míope, mas começa a descobrir que o clamor da rua pode custar umas eleições. Nada como mudar para que tudo fique mais ou menos na mesma.

Das denúncias

Em Portugal há mais denúncias do que investigações e mais destas do que conclusões. Da mesma forma que há mais arquivamentos do que trânsitos em julgado. Tem tudo a ver com o optimismo nacional. O grito do Ipiranga de Monteiro Pinto vai rigorosamente para o cesto dos papéis arquivados. Como o próprio sabe. Ou, pelo menos, já arquivou na sua memória.


As verdadeiras  questões de Davos

Muito se tem falado de Davos, do que se debateu e do que ficou nas entrelinhas do encontro onde vão os pesos-pesados da política e da finança. Depois de, no ano passado, se terem anunciado os novos tempos trazidos pela globalização, este foi um ano de vacas magras. A recessão bateu à porta e o mercado financeiro global tornou-se uma colecção de bonecas Matrioshka russas: ninguém sabe que mistério surge quando se tira uma delas. Talvez o texto que defina, com rigor, os desafios que se deparam às sociedades actuais, esteja no “Financial Times” e é assinado por Gideon Rachman. Em suma ele diz uma coisa: enquanto os financeiros estão assustados, os políticos estiveram mais livres para tentar perceber as consequências da globalização. E não estão a ficar muito bem dispostos com o que está a acontecer no topo inferior da pirâmide. Os custos da comida e da energia estão a subir, a água está a escassear. Como se isso não bastasse o clima está a mudar. E, diz Rachman, a busca de alternativas ao petróleo levou aos biocompustíveis feitos a partir do milho. Este, utilizado na alimentação, foi desviado para ali. Os biocombustíveis necessitam de muita água e com a necessidade de terras para mais comida, estão a devastar-se as florestas (a começar pelo Brasil). Os preços da comida e da energia estão a subir assustadoramente e quem mais sente isso são os que estão no topo inferior da pirâmide. Os políticos começam a ver manifestações da Indonésia e no México. E, como se não bastasse, as riquezas de petróleo e do gás no Árctico estão a levar a movimentações militares de diversas potências. O mundo está perigoso e só em Portugal é que não se repara nisso. O optimismo reina por aqui.

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