Fernando  Sobral
Fernando Sobral 25 de dezembro de 2013 às 23:00

Nostradamus, a astrologia e a cosmética num ano sem fim

O próximo ano não terá fim. Não terminará a 31 de Dezembro, porque a austeridade ultrapassará o ano civil e o ano fiscal. Não terminará a 30 de Junho. Não é Nostradamus que o prevê. É o FMI, o grande astrólogo dos tempos modernos, quem o diz. 2014 durará, pelo menos, entre 10 e 15 anos. O que atirará o futuro de Portugal para a próxima geração. Se tudo correr bem do ponto de vista dos astrólogos do FMI e da União Europeia. E se esta sobreviver. E se o euro não implodir. E se Portugal conseguir criar riqueza para pagar a dívida irrevogável. Ou revogável a prazo, consoante a conjugação de astros.

Seja como for o segundo semestre de 2014 iniciará uma nova fase. Mesmo que haja programa cautelar, ainda que haja segundo resgate. Ainda que se invente uma outra solução, como pareceu passar diante dos olhos de Mario Draghi do BCE há uns dias. Preso pela dívida e pelo défice, mas também por uma elite política que não tem uma estratégia própria para o país diferente da que é servida nas cartilhas de Berlim e Bruxelas, Portugal continuará a viver à bolina. Com um desemprego inenarrável, com impostos altíssimos para o comum português, com uma burocracia e justiça da Idade Média, com uma estratégia cultural deficiente, sem uma política atlântica e asiática visível, sem definir as traves-mestras da ligação ao mundo que fala português. Nada de profundo mudará: a emigração (desta vez dos que têm mais conhecimentos) continuará, a pressão fiscal sobre os que ficam não suavizará. Portugal voltará, como o é desde o século XV, a ser uma nação de homens e mulheres que precisam de encontrar um bom sítio para viver fora daqui.

A astrologia continua a ser a ligação entre os eventos celestiais e terrestres. Mas nem ela conseguirá determinar totalmente o que sucederá a Portugal. Quando os espelhos surgiram há cerca de 5000 anos, as pessoas acreditavam que eram poderosos talismãs com a capacidade para fazer um feitiço nas mentes das pessoas. O espelho de Portugal é a classe política, presa demasiado aos seus interesses eleitorais e à máquina de empregos em que se tornou. Por isso, assim, o Estado não é reformável. Porque cada partido, ao conquistar o Governo, encara este como sendo o Estado. Por outro lado o abalo fiscal destruiu a fluidez inter-classista. Quem tem mais conhecimentos, melhores e sólidas famílias, ou frequentar um partido, terá mais hipóteses de futuro. Caia este Governo, haja eleições, vença o PS, nada de fundamental mudará. O resultado das eleições europeias serão um sinal. A saída ou não da troika (formal, porque aqui continuará a pairar) ajudarão a perceber o destino político do país. Isso faz-nos regressar às previsões de futuro de Nostradamus.

As elites e Nostradamus

Regresse-se ao passado, para entender o presente. Em 1552, o físico Michel de Nostredame estava sentado no seu laboratório da Provença. A sua imagem era reflectida pelos tubos de ensaio e ampolas que o rodeavam. Tinha acabado o seu manuscrito sobre cosmética e perfumes. Era conhecido como grande especialista em cremes de cara. Estudara os cremes usados pelos embalsamadores para melhorar a aparência dos falecidos. Tinha outros conhecimentos. Além de físico era também filósofo e professor de grego e latim. O seu livro de profecias continua a ser consultado sobre todos os eventos estranhos que acontecem. Uma crise da dívida portuguesa não o é. As crises da dívida sucedem-se entre nós como a aparição de cometas.

A diferença é que muitas das nossas elites não são tão cultas como Nostradamus. Não percebe de cosmética, nem de latim, nem de culinária, nem de profecias. Pensa só no presente e não conhece o mundo. Portugal sobreviverá, mas não mudará radicalmente, para lá da destruição de um tecido económico e a sua substituição, a prazo, por um diferente. Embora todos os que têm sensatez imaginem que o calco cultural de um país entre o Mediterrâneo e o Atlântico não permitirá que ele seja um novo Bangladesh ou Indonésia, que vive só das exportações.

É possível imaginar o que será 2014 ou é tudo um exercício de probabilidades matemáticas onde as contas de sumir serão sempre mais determinantes do que as de somar? A troika sairá de Portugal ou terá cá um quarto de hotel reservado, 365 dias por ano, para veranear quando lhe apetecer? Teremos mais soberania ou ela será teórica? O Governo aguentará continuar a fazer "reformas" (tradução: cortes) sem que a sociedade impluda? Conseguirá o Governo ultrapassar o temível mês de Junho, mesmo que conte com a ajuda do Mundial de Futebol? Tornar-se-á a oposição credível, agora que os faróis sociais-democratas (François Hollande e o SPD alemão) parecem fotocópias mal feitas de Sarkozy e de Merkel? Nostradamus não teria uma resposta para um país que nem se governa nem se deixa governar. E que só tem receio. E por isso emigra. Continuamente.

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