Fernando  Sobral
Fernando Sobral 11 de junho de 2018 às 21:10

O grande jogo da Coreia

Donald Trump (depois de uma saída pouco airosa do G7, onde conseguiu virar contra ele os seus maiores aliados) precisa de mostrar que sabe negociar internacionalmente e que é um mensageiro da paz.

Não foi um acaso: o avião que transportou Kim Jong-un da Coreia do Norte para Singapura era da Air China. Ou seja, não estando na cidade-estado, Pequim mostra que continua a ter uma palavra a dizer no encontro que hoje vai decorrer entre Donald Trump e o líder norte-coreano. Será um encontro duro, mesmo por trás dos interesses de ambos e dos sorrisos. Afinal, na península coreana não existe a paz desde a década de 1950: há um armistício. Depois há que recordar um outro facto: a Constituição da Coreia do Norte recorda-nos de que o Presidente é Kim Il-sung. Não importa que ele tenha morrido em 1994: a Constituição designa-o como Presidente para toda a eternidade. O filho de Kim Il-sung, Kim Jong-ol, governou de 1994 a 2001, mas nunca como Presidente: ficou como o secretário-geral eterno do Partido dos Trabalhadores da Coreia. Assim, Kim Jong-un não tem, na verdade, nenhum dos títulos: não é o Presidente nem o secretário-geral do partido. Num regime declaradamente pessoal, a liderança é opaca. Mas o certo é que o encontro serve aos dois líderes para se afirmarem na cena internacional.

 

Kim Jong-un mostra que quer ser aceite como um parceiro internacional. Não que espere muito dos EUA (a ideia da "solução líbia" para ele não lhe terá agradado particularmente, especialmente quando a administração americana a referiu num momentos em que a diplomacia estava a funcionar). Por outro lado, Donald Trump (depois de uma saída pouco airosa do G7, onde conseguiu virar contra ele os seus maiores aliados) precisa de mostrar que sabe negociar internacionalmente e que é um mensageiro da paz. Há que ter em consideração que se a desnuclearização da península coreana é um tema fulcral, esta reunião tem que ver com a alteração de todo o universo estratégico na região e no mundo. Onde os EUA se estão a refugiar dentro da sua concha e a China parece ser cada vez mais uma potência fundamental, em termos económicos, políticos e mesmo militares. Há que ter em consideração que Kim não é um louco, apesar de gostar de surgir como tal. Parece ser um jogador racional, mesmo se alia a rudeza com que elimina adversários e inimigos com um charme que o mostra como devoto da NBA. O certo é que ele, no último ano, conseguiu libertar-se do isolamento internacional a que estava sujeito o país e o fascínio recíproco que há com Trump permite-lhe caminhar ainda mais nesse desígnio. A sua aproximação a Xi Jinping mostra que é calculista: como o seu avô, que conseguiu colocar Estaline contra Mao Tsé-tung, vai com toda a certeza tentar jogar entre as diferenças entre Jinping e Trump. Sabe que se não chegar a acordo com Trump, Jinping não o deixará cair. Haverá hoje em Singapura uma luta de egos. Depois se verá o que acontece.

 

Qatar: o apoio chinês

 

Há quase um ano que o Qatar está perante um cerco orquestrado pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos, a que se juntaram o Bahrein e o Egipto. Com os EUA a terem uma posição pouco transparente, Doha tem vindo a diversificar as suas opções estratégicas, porque sabe que submeter-se às exigências de Riade é o mesmo que abdicar da sua soberania. A China esta a colocar-se como um aliado precioso: compra energia ao Qatar, fornece a mercadoria que os vizinhos deixaram de permitir passar nas suas fronteiras e teve um papel vital para construir o principal estádio de futebol, o de Lusail, perto de Doha, que albergará o Mundial de Futebol de 2022. Depois do embargo tudo se parecia complicar: os preços do imobiliário caíram a pique e notaram-se perturbações nos supermercados. A economia (não tendo em consideração as receitas do petróleo) cresceu apenas 4% no ano passado face a 5,6% em 2016 e as reservas do banco central caíram de 31 biliões de dólares para 15 biliões. Mas o Qatar, de 2,5 milhões de habitantes e liderado pelo jovem emir Sheikh Tamim bin Hamad Al Thani, tem resistido. E desafiado o bloqueio. Renovou a economia e investiu na infra-estrutura. Importou vacas dos EUA para conseguir auto-suficiência em leite, por exemplo. Os resultados começam a ser visíveis: de acordo com o FMI, a economia do Qatar deve crescer 2,6% este ano, comparado com os 2,1% do ano passado. A Fitch reviu o "outlook" de "negativo" para "estável". E as reservas subiram para 17 biliões de dólares, segundo o HSBC.  

 

Há um outro dado importante: as importações de gás da China cresceram 46% no ano passado e o Qatar contribuiu com uma grossa fatia dessas importações. E este ano a China deve aumentar mais 25% das importações de gás, o que deixa o Qatar numa posição muito boa para lucrar com isso. Por outro lado foi aberto um centro "offshore" de yuans em Doha. Há uma forte aposta na Nova Rota da Seda e há uma aproximação militar crescente. O novo porto de contentores de Hamad vai também implementar esta relação comercial com a China e evitar o boqueio. Face ao bloqueio, o Qatar resiste.

 

China, Portugal e Brasil: aviação junta-os

 

Um avião Boeing 747 Cargo, com as insígnias da Beijing Capital Airlines e da TAP, vai iniciar este ano uma operação para ligar a China, Portugal e Brasil, "uma espécie de via rápida entre o Extremo Oriente e o Brasil", disse o presidente da companhia aérea portuguesa. Miguel Frasquilho, à margem da II Feira e Conferência Internacional de Negócios, disse que a companhia pretende aproveitar as sinergias decorrentes da participação accionista do grupo chinês HNA, que integra o consórcio privado Atlantic Gateway (dono de 45% da TAP). Para já, a transportadora portuguesa assegura uma ligação comercial com a China em "code share" com a Beijing Capital Airlines, detida pelo grupo HNA, mas o objectivo é voar directamente para a China, tendo Frasquilho adiantado que a operação "já está delineada, devendo ser concretizada num futuro não muito longínquo, dentro de três a quatro anos."

 

Macau: quer ser centro de diamantes

 

Macau pretende constituir um centro internacional de negócios de diamantes e pedras preciosas em bruto aproveitando, entre outros, a rede da Bolsa de Diamantes de Xangai e as pedras preciosas que existem nos países de língua portuguesa, segundo um comunicado do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau (IPIM). Com vista a aprofundar a cooperação e desenvolver a indústria de diamantes e jóias de Macau, o presidente do IPIM, Jackson Chang, e o presidente da Bolsa de Diamantes de Xangai, Lin Qiang, assinaram um Acordo para a Cooperação Estratégica que aponta para o desenvolvimento da indústria ao nível internacional. Fundada em 2000, a Bolsa de Diamantes de Xangai é o único mercado de importação e exportação de diamantes no interior da China e o quinto maior centro de negócios de diamantes do mundo, juntamente com Antuérpia, Nova Iorque, Bombaim e Joanesburgo. A bolsa de Xangai tem transacções anuais superiores a cinco mil milhões de dólares. A China importa pedras preciosas e semipreciosas de Angola, Brasil e Moçambique.

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