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Fernando Sobral fsobral@negocios.pt 21 de Março de 2017 às 19:11

O pão-de-ló da CGD

Em "O Ouro do Reno", a ópera que funciona como prólogo da tetralogia de Wagner, um nibelungo chamado Alberich desdenha o amor em troca de um tesouro escondido no fundo de um rio.

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As ninfas que guardam o ouro advertem-no de que há que escolher entre o dinheiro e o amor. Alberich, que tem alma de negociante, escolhe o amor. Mas o amor ao dinheiro, é claro. Este é o destino das civilizações actuais. E passa-se o mesmo quando se discute o futuro da CGD. É de dinheiro que falamos. Tal como quando falamos do Montepio. Ou falámos do Banif, do BPN ou do BES. É de dinheiro que também fala o inefável Wolfgang Schäuble, que nunca mais é removido do seu cargo como ministro das Finanças alemãs e megafone de quem quer destruir o que resta da economia dos países do Sul da Europa. Olhe-se para o dilema da equipa de Paulo Macedo: por um lado, tem um glutão para gerir, cujos apetites é preciso travar; por outro, tem um político obcecado por uma SMS; e ainda por cima tem de tentar encontrar o mínimo denominador comum entre quem diz que é preciso sanear financeiramente a CGD e os que acham que algo deve mudar para que tudo continue na mesma.

 

Sabe-se que a CGD foi sempre um pão-de-ló para os partidos que costumam ocupar o poder em Portugal. E esses não querem perder migalhas. A histeria nacional desenvolvida por muitos partidos sobre o fecho de delegações da CGD em concelhos periféricos parece ser justificada. Afinal é o último sinal do Estado que abandonou o interior. Mas esse pedido vira-se contra quem agora descobriu uma bandeira eleitoral nas vésperas de autárquicas. O Estado, nos últimos anos, fechou todo o tipo de serviços públicos no interior, da saúde ao ensino. Nada disso comoveu tanto os políticos portugueses. Desertificou-se o país do interior e agora, com lágrimas de crocodilo, pede-se que a CGD seja a salvadora dessas almas pecadoras. Ainda não se percebeu o que se quer: uma CGD estatal, séria e dinamizadora da economia, mas gerida com inteligência (e não apenas lógica financeira), ou um banco que é um pão-de-ló para todos os gostos?

 

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