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O velejador Feliciano 

O problema maior de Barreiras Duarte não era seu. Era de Rui Rio, que o escolheu e que agora não sabia o que fazer à sua "mão-direita": cortava-a, comprava uma postiça ou fingia que ela não existia?

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Um dos grandes autores britânicos do século XX, G. K. Chesterton, disse um dia que tinha o sonho de escrever sobre um velejador que se tinha enganado na rota e acabara por descobrir a Inglaterra julgando que estava a chegar a uma nova ilha nos mares do Sul. O velejador sairia do barco, armado até aos dentes e tentando comunicar por sinais e tentaria colocar a bandeira britânica no Brighton Pavilion, uma residência real feita para acolher o príncipe regente do Reino Unido. O absurdo seria completo. Mas a memória desta alucinação não desapareceu. Feliciano Barreiras Duarte, um século depois, tentou recriá-la. Desembarcou no Congresso do PSD e julgou ter entrado numa universidade. E confundiu uma carta de intenções com um currículo. Pior: demorou muito tempo a perceber, porque não entende a linguagem dos sinais, que se deveria demitir. Pouco convencido, lá se soltou da cadeira de secretário-geral do PSD, depois de perceber que até as lapas são retiradas das pedras e acabam grelhadas.

 

O problema maior de Barreiras Duarte não era seu. Era de Rui Rio, que o escolheu e que agora não sabia o que fazer à sua "mão-direita": cortava-a, comprava uma postiça ou fingia que ela não existia? Dentro do PSD os espasmos de Rui Rio eram uma espécie de "cancan": uma dança energética que, se não for feita pelas pernas perfeitas, arrisca-se a ser uma farsa humilhante. Foi tudo isto que sucedeu nesta longa semana a Barreiras Duarte, que agora se diz vítima de "violência inusitada". É capaz de ter sido, mas foi infligida pelo próprio. A direcção de Rui Rio parece-se agora com as figuras das carreiras de tiro das feiras populares das vilas portuguesas. Só que o prémio é pouco apelativo. Ao vencedor não sai um coelho ou um panda de peluche. Sai um Barreiras Duarte. Porque ele, removido de secretário-geral, vai continuar a sua vidinha como deputado. Na última fila, até um dia renascer ou reformar-se. Harry S. Truman tinha um quadro no seu escritório onde se lia: "A responsabilidade final é minha." E aqui, é de quem?

 

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