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Fernando Sobral - Jornalista fsobral@negocios.pt 29 de Outubro de 2015 às 18:29

O Governo da acalmação e a emigração

Em 1908, Ferreira do Amaral dirigiu um executivo chamado o "governo da acalmação". Não durou muito. Portugal vivia dias tempestuosos e a Monarquia ia-se dissolvendo.

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Dois anos depois Fernando Pessoa não tinha muitas dúvidas: "Metade do país é monárquico; metade do país é republicano…Por qualquer razão, que não nos compete investigar, os republicanos estão mais organizados do que os monárquicos; noutras palavras, a maioria republicana activa é mais activa que a maioria monárquica activa". Mais de um século depois, Portugal parece novamente dividido ao meio. O espelho disso é a Assembleia da República e o bloqueio que se adivinha entre uma maioria relativa da coligação PàF (com o apoio declarado de Cavaco Silva) e uma maioria à esquerda, embora com clivagens históricas e visíveis que só o tempo dirá se foram mitigadas. Não há pois "Governo de acalmação" possível, porque os ânimos estão demasiado exaltados para se olhar serenamente para o futuro do país.

 

Se o destino deste muito fraco Governo que Passos Coelho apresentou parece traçado, a partir daí tudo é uma incógnita. Até porque Portugal precisa de um OE credível. Não precisa claramente é de um Governo de gestão com oposição maioritária no Parlamento que poderá legislar ao contrário do que possa ou deseje fazer. Aí sim, o bloqueio seria total, com consequências imprevisíveis para o dia-a-dia dos portugueses. Uma solução maioritária, mesmo a prazo, será sempre mais sensata do que governar à vista. Mesmo que Cavaco Silva pareça preferir esse risco. O problema é que independentemente da questão governativa, Portugal está muito mais dividido do que por simples simpatias políticas. Está a desintegrar-se e os anos de austeridade deram um forte contributo para isso.

 

O relatório sobre a emigração divulgado pelo Governo é claro sobre o descalabro que se seguiu à entrada da troika para "equilibrar as finanças". Em 2014 saíram de Portugal 110 mil portugueses, o mesmo número que em 2013. Ou seja, valores "da ordem dos observados nos anos 60/70 do século XX". Voltámos a ser um país de emigrantes, algo que é cíclico, porque Portugal continua a mostrar-se incapaz de ser um porto seguro para quem aqui nasceu. A maioria dos portugueses emigra para a Europa, embora os números países como Angola já sejam impressionantes. Mas o que é revelador da sangria que está a acontecer é que, ao contrário da emigração dos anos de 1960/1970, esta é qualificada.

 

Um número é extremamente relevante: um terço dos enfermeiros que se licenciaram em 2013 (cerca de 3000) foram trabalhar para o Reino Unido, o que evidencia um dos estrangulamentos da economia nacional. Gasta-se dinheiro em formação e depois ela é rentabilizada alhures. Como grande parte desta nova emigração é hoje de qualificados isso faz-nos também reflectir sobre a competitividade, a inovação e a formação num país onde parece que é só com baixos salários que se consegue, na opinião de alguns génios, uma forte economia. É nestes paradoxos que se vai construindo um Portugal que não aproveitou os anos de austeridade para fazer uma ruptura de métodos com o passado e que, entretanto, criou novas alianças e cumplicidades que se passaram a alimentar do aparelho de Estado. Ou seja, a "destruição criativa" apenas afastou uns e colocou outros à sombra da bananeira do Estado.

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