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Fernando Sobral fsobral@negocios.pt 31 de Maio de 2012 às 23:30

Pêro da Covilhã e os agentes Zero Zero Zero

A questão que está hoje em causa não é a guerra entre empresas privadas. Nem sequer é o sr. Silva Carvalho. É a aparente bonomia como o bloco central de interesses olha para a acção de quem teve acesso a informação confidencial no Estado e a continuou a utilizar para espiolhar cidadãos.

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A questão que está hoje em causa não é a guerra entre empresas privadas. Nem sequer é o sr. Silva Carvalho. É a aparente bonomia como o bloco central de interesses olha para a acção de quem teve acesso a informação confidencial no Estado e a continuou a utilizar para espiolhar cidadãos.

Portugal teve um grande espião. Chamava-se Pêro da Covilhã e a sua acção revelou-se determinante para a estratégia interna e externa de D. João II. As suas informações foram cruciais para Vasco da Gama chegar à Índia. As suas qualidades perderam-se no tempo, tal como as de gestão estratégica de D. João II. Pêro da Covilhã poderia servir de exemplo, e quase de símbolo, para os serviços de inteligência nacionais. O problema é que este grande legado está a ser demolido por quem tem dos serviços de inteligência do Estado português uma visão de agência de "trade-off". A completa falência moral em que caíram os serviços secretos portugueses, onde a promiscuidade entre interesses pessoais e da República é total, está a deixar as secretas portuguesas sem credibilidade. Lendo o que se passa, como partilharão os serviços secretos estrangeiros informação confidencial com os portugueses se não sabem onde eles irão parar?

O pântano moral dos serviços secretos portugueses não é de agora. Mas o que custa é que o sector comporta-se como uma associação de agentes duplos. Eles existiam na Guerra Fria. Mas hoje funcionarem para o Estado e para privados ao mesmo tempo tem um odor mais carregado. Conta-se mesmo a célebre toca de palavras entre Allen Dulles, então director da CIA e Nikita Khrushchev, líder da então URSS. Dulles: "Você, sr. Presidente, tem visto alguns dos meus relatórios secretos de tempos a tempos"; Khrushchev: "Eu acredito que nos chegam os mesmos relatórios - e talvez venham das mesmas pessoas"; Dulles: "Talvez devêssemos juntar os nossos esforços"; Khruschev: "Sim. Deveríamos comprar as nossas informações secretas em conjunto e poupar dinheiro". Assim teríamos de pagar as pessoas só uma vez". Aqui não há agentes duplos. Há apenas aqueles que sendo pagos pelo Estado estão ao serviço de interesses pessoais.

Pior. Assiste-se a uma utilização de meios do Estado para interesses privados. A questão que está hoje em causa não é a guerra entre empresas privadas. Nem sequer é o sr. Silva Carvalho. É a aparente bonomia como o bloco central de interesses (o PSD, o PS e agora também o PP) olha para os cruzamentos entre quem teve acesso a informação confidencial no Estado, a continuou a utilizar ao serviço de entidades privadas, e sobretudo como se devassa a vida de pessoas. Utilizando meios do Estado, através de cumplicidades pessoais e de interesses. A espionagem não é um fim em si. Tem sempre um contexto: as pessoas espiam outras porque querem saber um segredo. Mas, numa sociedade democrático, tem de haver um controle. E ele, pelo que se vê, não existe. Nem por parte do Governo. Nem por parte da Assembleia da República.

Alguns espiões portugueses gostariam não de ser tão activos como 007. Outros gostariam de ser C., o célebre Mansfield Cumming, criador dos serviços secretos britânicos. Mas, na essência, pela sua frivolidade e incompetência, são meros agentes Zero Zero Zero. Só que esta falta de competência põe em causa a democracia portuguesa. E é isso que o Governo não parece querer ver. E é por isso que, no meio de muitas ligações menos transparentes, o ministro Miguel Relvas fica diminuído politicamente. E Passos Coelho colocou a sua carne no assador pelo seu fiel número dois. Mas isso não chega. Porque mesmo que o sr. Silva Carvalho seja o bode expiatório de tudo isto, convém saber como se espiam pessoas em Portugal e, nalguns casos, como pessoas fora do Estado continuam a utilizar meios da República que deveriam servir para defender o país. E é isso que continua por responder. E é por isso que esta história de espionagem à portuguesa é um atentado à democracia portuguesa.

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