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Fernando Sobral fsobral@negocios.pt 01 de Junho de 2017 às 21:03

Portugal: que fazer?

A globalização tornou-se um jogo de Monopólio. Só há um vencedor. E, neste mundo de hegemonias variadas, há quem tente manter-se à tona de água.

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É o caso de Portugal, país periférico, com as suas valias, mas que é um peso-pluma quando comparado com as poderosas potências que fazem os grandes jogos. Seja no mundo, seja na Europa. Portugal, sendo um país com características perfeitas de porto franco (aqui chegam culturas variadas, como se vê com este "boom" do turismo), que tem condições para ser um pequeno paraíso neste universo de confusões e contradições, vive subjugado: por uma dívida que o torna refém de uma Europa que, até aqui, bebeu na ideologia da austeridade que satisfazia sobretudo as pretensões da Alemanha e da elite de Bruxelas, e pelas suas próprias debilidades, que começam por ter tido durante demasiado tempo uma elite extractiva sem visão de futuro. Neste momento vive um dos seus momentos de ruptura. Ainda amarrado à dívida, joga num tabuleiro onde é peão e outros reis e bispos. É o caso da luta contra as insalubres agências de "rating", sanguessugas de riqueza alheia e vozes de ideologias e interesses bem definidos. Não é um acaso a estratégia das "três grandes" do "rating" relativamente a Portugal. Só que, neste mundo de nivelamento ideológico, elas determinam as decisões. E com a nossa dívida externa (uma prioridade nacional é reduzi-la substancialmente) pouco há a fazer. Como disse Joseph Stiglitz no Estoril: "Não se sabe o que farão (as agências), porque têm motivações políticas".

 

Seja como for, Portugal está refém destas motivações. Tal como as da Europa, que se tornou uma ortodoxia neo-liberal em termos económicos e financeiros. O mesmo Stiglitz disse no Estoril, com toda a razão: "(Os limites do défice, a dívida e a taxa de inflação) são números que são tratados como se tivessem sido dados por Deus, como se fosse uma violação das leis básicas da natureza quebrar essas regras". Presos ao euro, não poderemos sair delas. Para Stiglitz, o problema está na própria estrutura do euro. Então, que fazer? Dizer como Nigel Farage, também no Estoril, que "não se pode ser um cidadão português e apoiar a União Europeia"? Neste mundo complexo, com a saída de cena dos Estados Unidos, e o poder da China e da Rússia, à Europa não restam muitas alternativas: ou se afirma como um bloco, ou avança cada um por si. São opções muito díspares. Sabe-se que o Brexit não será radical como as posições de força afirmam: haverá um acordo comercial com o Reino Unido em troca da sua força militar e mercado. Ao mesmo tempo, sabe-se que a Alemanha está a aumentar o poder das suas Forças Armadas por meios que não entram em choque com o "desarmamento" pós-II Guerra Mundial; antes torneiam a questão. Assim, neste contexto, que caminho resta a Portugal? É uma opção estratégica que passa primeiro por nos libertarmos da canga da dívida externa, porque não é possível repudiá-la, como exige alguma esquerda festiva. É preciso pensamento estratégico. Algo que tem faltado entre nós.

 

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