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Fernando Sobral fsobral@negocios.pt 28 de Março de 2013 às 13:57

Portugal no meio do nevoeiro

O que sucedeu e vai suceder em Chipre é uma martelada na cabeça de Portugal. Deixou de haver regras na União Europeia e há países que são mais iguais do que os outros. Por isso é necessário começar a perceber que poderá ter de se começar a pensar numa alternativa séria a esta espiral de austeridade.

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Ciclicamente Portugal vive à espera de D. Sebastião. Nada de espantoso para um povo que passa a vida a ter de procurar fora deste rectângulo à beira-mar especado a possibilidade de sobreviver por incapacidade das suas elites tornarem este sítio um local decente para viver. "A Pátria" de Guerra Junqueiro simboliza este desígnio: "Joana d'Arc e Nun'Álvares, irmãos gémeos, redimem duas pátrias. Focos ambulantes de espírito divino, arrastam e vencem, magnetizando. (…) E a questão económica? Resolvida por si!" Para Junqueiro, Nun'Álvares era D. Sebastião. Até poderia ser a República. Mas nem essa salvou Portugal dos seus.

 

Quando se olha hoje para a miséria da paisagem política e para os discursos embrulhados dos técnicos que prometeram a sobrevivência do país através das suas calculadoras infalíveis, da troika a Vítor Gaspar, sente-se que o tempo é outra vez de desespero e medo. A presença na moeda única foi a entrada num colete-de-forças para o qual há uma única saída - o adeus ao euro. Sem crescimento económico (e, portanto, com desemprego crescente e sem esperança de haver riqueza para distribuir num futuro próximo), os governos ficaram reféns do corte de despesas, do aumento de impostos, nos salários, no consumo e na segurança social. E com dívidas insustentáveis Portugal ficou sob uma tutela externa: chame-se troika, Bruxelas ou Alemanha.


O que está a acontecer no Chipre é mais um sinal: até os depósitos bancários, ou seja a segurança das pessoas, deixou de estar a salvo desta armadilha onde as elites colocaram os povos. Em Chipre deixou de se crer nalguma coisa (era um paraíso fiscal com a conivência da União Europeia, não o esqueçamos). Sem o turismo russo e o seu dinheiro, sem agricultura ou indústria, terá apenas de esperar para que o gás natural resolva alguma coisa. Se não tiver de o hipotecar desde já. É uma lição para Portugal que se julga a salvo do que é o lento suicídio grego e este, rápido, do Chipre. Tudo por causa de uma moeda incapaz de manter a solidariedade entre Europas diferentes.

 

Mas com esta política, da troika e do Governo, a austeridade vai criar um nevoeiro cerrado. Onde os portugueses deixarão de se ver. E deixarão de vislumbrar o futuro.

Em Chipre tudo se desagrega. Sobretudo a confiança e a esperança. Chipre vai entrar numa grande recessão, num desemprego calamitoso. A destruição durará talvez uma geração. Ou mais. O sector financeiro de Chipre vai ser desmantelado. E era ele o motor da economia da parte grega da ilha. O acordo, por incrível que pareça, nem precisa do acordo do Parlamento cipriota. A democracia foi suspensa para salvar a moeda única. Algo fantástico numa Europa que gosta de dar lições de moral ao mundo.


O que sucedeu e vai suceder em Chipre é uma martelada na cabeça de Portugal. Deixou de haver regras na União Europeia e há países que são mais iguais do que os outros. Por isso é necessário começar a perceber que poderá ter de se começar a pensar numa alternativa séria a esta espiral de austeridade que, conforme confirmou o Banco de Portugal, a continuar desta maneira, destruirá ainda mais a economia real, impedirá o crescimento, aumentará o desemprego e tornará o país incapaz de pagar as dívidas externas. Não há volta a dar: sem crescimento económico a austeridade será sempre cada vez pior. Junqueiro julgava que, à falta de D. Sebastião ou de Nun'Álvares, a República resolveria o problema do país. A economia resolver-se-ia por si próprio. Mas com esta política, da troika e do Governo, a austeridade vai criar um nevoeiro cerrado. Onde os portugueses deixarão de se ver. E deixarão de vislumbrar o futuro.

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