Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 20 de maio de 2020 às 09:45

A candidatura anti-sistema de Marcelo

Os tempos não recomendam grandes estados de alma. Nas presidenciais a direita vai precisar de muito sangue frio e daquele pragmatismo próprio do instinto de sobrevivência. A opção mais evidente, mesmo para quem não goste de Marcelo, continua a ser apoiá-lo.

Já aqui defendi que a direita, se nas presidenciais estiver entre Marcelo Rebelo de Sousa e André Ventura, deve unir-se em torno do actual Presidente ("Sem hesitações com Marcelo", 29.01.2020).

 

Repito o que escrevi: Ventura (por projecto pessoal) e os seus ideólogos (por projecto político) querem destruir a direita democrática e liberal, que o sistema partidário representou no PSD e no CDS (e hoje também na IL), e substituí-la pela direita autoritária que desde o 25 de Abril frequenta apenas o bas-fond do regime. Em 2021 há a ocasião perfeita: as presidenciais serão eleições hiperpersonalizadas, num ambiente de emotividade populista crescente e com um incumbente sem risco de derrota, que vem da direita mas vive em aparente concubinato com o PS. É o cenário ideal para Ventura polarizar o voto de protesto. Se tivesse um resultado claramente acima do que teve nas legislativas, ou mesmo acima do que as sondagens hoje lhe dão, instalar-se-ia a ideia de que veio para ficar. A pressão sobre os partidos tradicionais seria enorme.

 

Ventura tem perdido gás, por causa dos sucessivos tiros no pé que um oportunista caricato como aquele inevitavelmente acaba por dar. Mas na semana passada António Costa deu-lhe uma ajuda importante, ao sinalizar o apoio a Marcelo. O que Costa quer com esta jogada, antes de mais, é colar-se a uma candidatura vencedora e a uma maioria presidencial, e resolver o problema do PS, que pela ordem natural das coisas teria de apoiar um candidato perdedor e arcar com uma derrota no arranque de um ano de autárquicas. Antecipando-se à direita, evita ter de no futuro apoiar "o candidato da direita".

 

Sucede que Costa quer mais do que isso. Quer mesmo estimular o voto em Ventura, para ajudar a destruir a direita partidária tal como a conhecemos (algo em que, aliás, o PS tem apostado - vejam-se as sucessivas borlas de Ferro Rodrigues na AR). O processo de reconfiguração e renascimento seria longo e talvez revelasse uma direita mais radical, mais longe do centro e mais estéril. Tudo se conciliaria para a "mexicanização" do regime em torno do PS, como o grande partido inamovível do centro. Costa tem muitos defeitos, mas não tem o defeito de não saber aproveitar uma bola a saltitar à sua frente para rematar à baliza.

 

O apoio do PS a Marcelo é uma premissa nova que nos obriga a repensar as ideias feitas sobre as presidenciais. Desde logo, a ideia de Marcelo como "o candidato do sistema" passou a ser quase risível. Pelo contrário, o que Marcelo protagonizaria neste cenário seria a candidatura anti-sistema por excelência: seria uma candidatura perigosíssima para a sobrevivência dos partidos estruturantes da direita democrática e, por arrasto, para o equilíbrio entre dois pólos temperados, fundamental no nosso sistema político. Mesmo sem querer, a candidatura de Marcelo seria uma candidatura subversiva do regime.

 

Os tempos não recomendam grandes estados de alma. Nas presidenciais a direita vai precisar de muito sangue frio e daquele pragmatismo próprio do instinto de sobrevivência. A opção mais evidente, mesmo para quem não goste de Marcelo, continua a ser apoiá-lo. Aliás, convém ter a noção de que, se a direita continuar como está, Marcelo será a única figura com popularidade e estatuto de "chefe". Na ausência de oposição moderada que se veja, poderá querer ser ele a fazer esse papel e até a comandar de Belém a reconstrução do seu espaço político de origem. Quem quer estar contra ele?

 

Mas é claro que o cenário também passou a ser melhor para um eventual terceiro candidato. Uma ideia que, no entanto, só teria lógica se servisse para a direita democrática e liberal antecipar a discussão sobre o seu futuro, com uma cara e um projecto mobilizadores.

 

Um novo candidato à direita teria de ser mais qualquer coisa do que apenas o anti-Marcelo. Aliás, teria de estar absolutamente para lá de Marcelo. Se fosse só para representar passivamente um eleitorado ressentido com o actual Presidente, ou para continuar as guerras intestinas do PSD que tragicamente determinam há décadas a vida da direita, seria um esforço inútil. Um terceiro candidato até pode ser uma necessidade. Mas só vale mesmo a pena se for uma oportunidade. 

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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