Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 05 de novembro de 2019 às 20:00

A direita de que a esquerda gosta

Em Portugal, a democracia identitária é especialmente perigosa para a direita. Em primeiro lugar, porque é a esquerda que nela vive melhor. Foi a esquerda que lá fora a criou e foi a nossa esquerda radical - do Bloco ao Livre, passando pelas franjas do PS - que a importou.

No passado dia 25 de Outubro, o "Expresso da Meia Noite" da SIC Notícias convidou quatro representantes dos novos partidos parlamentares: João Cotrim de Figueiredo, deputado da Iniciativa Liberal, Carlos Teixeira, dirigente do Livre, André Ventura, líder do Chega, e Inês Sousa Real, deputada estreante do PAN (partido que elegeu pela primeira vez um grupo parlamentar). A ideia era dar a esses novos protagonistas a oportunidade de debaterem as suas prioridades para o país durante a actual legislatura.

 

Falou-se de muita coisa, desde o SNS para animais à reintrodução da prisão perpétua, passando por políticas ambientais agressivas que ninguém sabe como implementar e financiar. Mas o mais interessante - e instrutivo - foi o número de vezes que António Costa e o seu programa foram referidos: zero.

 

Pode parecer estranho. Afinal de contas, era um debate entre partidos da oposição. Sucede que estes partidos não se querem afirmar contra o Governo. A sua estratégia, como partidos que acabam de chegar, passa por afirmar a própria identidade. E isso faz-se menos por contraposição ao poder vigente e mais por desafio aos concorrentes já estabelecidos. Estes são os partidos "degenerados", que deixaram de ser a verdadeira direita ou a verdadeira esquerda, ou que são todos eles socialistas, ou que não têm realmente preocupações ambientais.

 

O debate foi um bom rascunho do que será a legislatura e o parlamento: uma sucessão infinita de debates meramente simbólicos, sobre temas identitários, mais para espicaçar o tribalismo dos eleitorados do que para dar ao seu voto qualquer representatividade consequente ao nível das políticas públicas.

 

Basicamente, estamos a assistir à chegada a Portugal da democracia identitária, já bastante consolidada noutros países, que substituiu a ideia de "comunidade" pela de "diferença". A democracia deixou de ser um processo de persuasão e conversação, de compromisso e síntese entre ideias opostas sobre a mesma identidade comunitária, com base em ideais colectivos agregadores - a nação, o povo, a cidadania, a solidariedade, a coesão social, o Estado-providência. Hoje a democracia parece caminhar para ser um combate permanente entre identidades individuais ou grupais opostas - a cor da pele, a orientação sexual, a confissão religiosa, a tradição familiar, a origem geográfica, etc..

 

O problema é que sem a "comunidade", que é o conceito político nuclear, nem a política progressista nem a política conservadora fazem sentido. A "comunidade" é a "identidade" política fundamental, aquela que enquadra todas as outras. Numa democracia comunitária, todos os interesses legítimos tendem para o reconhecimento. Numa democracia identitária, todos os interesses estão em risco de silenciamento e ilegitimidade. Porque se a relevância política de uma pessoa se esgota na sua própria circunstância, essa pessoa não é bem um cidadão - é um potencial inimigo de todas as outras.

 

Em Portugal, a democracia identitária é especialmente perigosa para a direita. Em primeiro lugar, porque é a esquerda que nela vive melhor. Foi a esquerda que lá fora a criou e foi a nossa esquerda radical - do Bloco ao Livre, passando pelas franjas do PS - que a importou.

 

Em segundo lugar, como já aqui escrevi, o PS tem um projecto de poder hegemónico. O seu desejo é "mexicanizar" o regime e eternizar-se como "o partido natural de governo". O partido charneira inamovível, centrista e pragmático, que governa inevitavelmente porque é o único que atende aos sentimentos maioritários do eleitorado, e porque em seu redor, à esquerda e à direita, só há irresponsabilidade. Ora, não há melhor cenário para esta ambição do que um sistema partidário fragmentado, obcecado com discussões panfletárias e proclamações sectárias.

 

Se a direita quiser regressar ao poder, não pode morder o isco do identitarismo ou do contra-identitarismo. A sua guerra é com o PS; o seu objectivo é convencer a maioria do eleitorado que tem um projecto diferente e melhor do que o dos socialistas no poder. Se quiser passar quatro anos a debater com as franjas radicais, à esquerda e à direita, ou a querer ser como elas, passará muitos mais anos na oposição. Essa é que é a direita de que a esquerda gosta.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

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