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Francisco Mendes da Silva 17 de Abril de 2018 às 20:32

A esquerda aguenta Centeno? Ai aguenta, aguenta

Para Mário Centeno, enquanto Portugal tiver a dívida que tem, a "folga" é um gambozino. Daí a prioridade à redução do défice. Só assim deixaremos de pedir tanto emprestado, só assim o que pedirmos nos sairá mais barato.

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No início da "geringonça", não embarquei na tese da ilegitimidade: qualquer governo com apoio de uma maioria de deputados é legítimo. Mas isso não significa que todos os governos com apoio parlamentar maioritário tenham exactamente a mesma legitimidade política. O actual governo tem uma legitimidade imperfeita, porque assenta em dois pressupostos errados, e esses pressupostos serviram apenas para distorcer o significado dos resultados eleitorais.

 

O primeiro é o de que a grande cisão do panorama político português está entre o PS e o PSD, como se os dois blocos ideológicos do regime fossem, de um lado, o PS e a restante esquerda e, do outro, o PSD e o CDS.

 

Não é verdade: a fronteira essencial está hoje, como sempre esteve, entre o PS e as várias forças que se vão acotovelando à sua esquerda. Em tudo o que é fundamental - das liberdades económicas às alianças internacionais, da gestão financeira do Estado à integração europeia -, o PS está mais próximo do PSD e do CDS do que do BE e do PCP.

 

O segundo pressuposto, resultado do primeiro, é o de que só com a esquerda o PS conseguiria ter um programa de fundo coerente. Como é óbvio, esse programa nunca existiu.

 

Em 2015, a "maioria" vendeu-nos que, para termos crescimento, reposição de salários, redução da carga fiscal e investimento nos serviços públicos, era indispensável enfrentar a Europa, fazer uma "leitura inteligente" dos tratados, abrandar a consolidação orçamental e renegociar a dívida.

 

Chegados a 2018, o que é que se fez? Repôs-se parte de alguns salários, reduziu-se a carga do IRS e compensou-se isso com aumento da tributação indirecta e mínimos históricos de investimento nos serviços. Tudo com redução ainda mais acelerada do défice, sem alucinações sobre a dívida ou fantasias acerca da "ortodoxia" europeia. E tudo, afinal, com crescimento.

 

Percebendo que a austeridade não tinha propriamente acabado, o BE e o PCP passaram a pedir que o governo fizesse qualquer coisinha de esquerda com a "folga" alcançada. Ao que o ministro das Finanças tem respondido com um semblante de "non sequitur" - como quem pergunta: "Folga? Qual folga?"

 

Para Mário Centeno, enquanto Portugal tiver a dívida que tem, a "folga" é um gambozino. Daí a prioridade à redução do défice. Só assim deixaremos de pedir tanto emprestado, só assim o que pedirmos nos sairá mais barato.

 

E o primeiro-ministro no meio de tudo isto? Convém que a esquerda não tenha ilusões: António Costa está ao lado de Centeno, quer por razões ideológicas (Costa nunca foi o mais vigoroso esquerdista do PS) quer por razões tácticas.

 

Costa não quer ficar para a posteridade apenas por ter impedido a direita de governar. Se geriu toda a sua vida para aqui poder chegar, é para ser o reformista que a esquerda atrelada não o deixa ser. Para isso, vai atrás do centro que lhe dê uma maioria absoluta.

 

Primeiro, com uma estratégia ilusória e eleitoralista de "reversão da austeridade", que privilegia o que as pessoas conseguem medir no recibo de vencimento (salários e IRS) e as sacrifica no resto (deterioração dos serviços, impostos indirectos).

 

Segundo, com a ideia - que Centeno não perde uma oportunidade de sublinhar - de que o país não pode regressar aos desmandos orçamentais do passado (leia-se, ao tempo de Sócrates).

Se com isto Costa conseguisse, ainda, o bónus de poder culpar a esquerda pela destruição da "geringonça", seria o Céu na Terra. É um bónus que, naturalmente, BE e PCP não podem dar. Resmungarão muito, mas carregarão o andor de Centeno até ao fim.

 

Advogado

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