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Francisco Mendes da Silva 22 de Abril de 2020 às 10:10

A esquerda que tem um problema com o 25 de Abril

Essa esquerda precisa da revolução permanente. Precisa de agitar sempre o fantasma do regresso do fascismo, para afirmar a sua legitimidade e justificar a sua sobrevivência. E é por isso que de vez em quando tem de puxar dos galões.

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Vejo que a esquerda portuguesa continua a cumprir uma das suas tradições mais enraizadas: aproveitar qualquer pretexto para acusar a direita de ser natural e irremediavelmente fascista. Não deixa de ser um alívio: por estes dias todos os vestígios de normalidade são uma fonte de consolação.

O caso é conhecido. A Assembleia da República, a funcionar durante o período excepcional na medida do indispensável, com a presença no hemiciclo de um número limitado de deputados, relaxou as suas próprias regras para realizar uma certa sessão solene anual. Alguns deputados não concordaram.

Também tenho as minhas dúvidas: se o Parlamento impôs a si mesmo limites de funcionamento por razões de saúde pública, especialmente quanto ao número de pessoas presentes no edifício e no hemiciclo, e se desse modo consegue cumprir a sua função legislativa primordial (mesmo com as exigências acrescidas desta fase de emergência), não percebo porque se sinta obrigada a realizar uma sessão em condições que vão além dos limites que os próprios deputados estabeleceram.

Para além disso, o Estado tem de ter a sua legitimidade intacta quando impõe medidas agressivas de confinamento e fecho generalizado da economia, que põem em risco o sustento das pessoas e proíbem boa parte dos seus rituais sociais, comunitários e familiares mais importantes.

A gravidade do momento exige que o Estado não brinque com a sua reputação, porque se o fizer o que fica em causa é a própria confiança das pessoas na bondade do estado de emergência e na estrita necessidade das medidas de saúde pública. Se até os políticos relaxam de vez em quando nas medidas que eles mesmos tomam, porque não há-de relaxar também qualquer um de nós, que esteja com saudades de uma ida à praia, de um piquenique no parque ou de abrir o seu restaurante numa sexta-feira à noite? Governar pelo exemplo não é menos importante do que governar por decreto.

Para a discussão não interessa verdadeiramente qual a sessão solene que está em causa, ou que data ela serve para celebrar, ou sequer que deputados estiveram contra a sua realização nos moldes decididos. O que se disse aplicar-se-ia a qualquer ocasião da mesma natureza.

Acontece que é o 25 de Abril que está em causa. Acontece que o principal rosto da oposição à ideia foi João Almeida, deputado do CDS. E acontece que o presidente da Assembleia é Ferro Rodrigues, que resolveu inventar a figura extra-regimental do “remoque” ou do “raspanete” para tratar Almeida como um perigoso inimigo da democracia.

Ferro deu o mote e logo de seguida vieram alguns dos guardiões do 25 de Abril temer pela Liberdade – desde Manuel Alegre, lá do confim de onde já nos enviou um lamento em verso sobre “as praças cheias de ninguém”, à CGTP, que planeia encher essas praças com alguém no próximo 1.º de Maio.

Estas atitudes não são novas. Mas são sempre muito instrutivas. A esquerda acha que lhe é devida uma vassalagem especial, porque fez a revolução e dirigiu a implantação do regime. E, de facto, durante muito tempo Portugal foi absolutamente feito à sua imagem e vergado à sua vontade – na política, na cultura, nos media. A esquerda corporizava o regime, porque a legitimidade do regime era revolucionária e essa legitimidade era só sua.

 

Há ainda muita gente que não aceita que Portugal tenha gerado uma direita irreversivelmente democrata e liberal.



Entretanto o país avançou, com gerações sucessivas que estão tão longe do salazarismo do que dessa esquerda antiga, que ficou presa na sua própria memória. Há ainda muita gente que não aceita que Portugal tenha gerado uma direita irreversivelmente democrata e liberal. Muita gente irritada com este país moderno que lhe fugiu das mãos, que não percebeu as maiorias de Cavaco, O Independente, as televisões privadas e a internet, que com a sua cacofonia de vozes dissonantes relativizou a tutela esquerdista do regime.

Essa esquerda precisa da revolução permanente. Precisa de agitar sempre o fantasma do regresso do fascismo, para afirmar a sua legitimidade e justificar a sua sobrevivência. E é por isso que de vez em quando tem de puxar dos galões.

O que temos de agradecer a muitas dessas pessoas não passa com o tempo. Mas por vezes parece que o que as preocupa não é que Abril esteja ameaçado: é que Abril se tenha cumprido, de facto e em pleno. Viva a Liberdade.

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico


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